Os coveiros

Até estar concluída a negociação para a retirada do Reino Unido da UE, o país mantém-se membro de pleno direito. Legalmente, nada muda, nem mesmo quando o governo notificar formalmente o Conselho Europeu dessa intenção. No entanto, Juncker, Schulz e Tusk já tratam o Reino Unido como pária europeu, disparando declarações avulsas e, no caso do presidente da Comissão, contrariando a sua máxima competência que é a de guardião dos tratados. A humilhação a que sujeitaram Cameron só tem uma leitura: os três querem que o referendo seja vinculativo, irreversível e abra a pior ferida na história da UE. Fazem mal. Essa história também diz que os referendos não são irreversíveis e que há formas de negociar estatutos sem pôr em causa a pertença à UE. A Dinamarca recusou Maastricht no referendo de 1992 e a Irlanda fez o mesmo com Nice e Lisboa, em 2001 e 2008. Algum saiu da UE? Não. O que Bruxelas fez foi ceder nalgumas exigências, suficiente para reverter o sentido do referendo numa nova votação. Há, sobre este método, três questões pertinentes. A primeira é que a Dinamarca e a Irlanda juntas não fazem o peso do Reino Unido na Europa. Certíssimo. Mais uma razão para se ter evitado o bullying feito por Bruxelas. Segundo, o Reino Unido já tocou nos limites das excecionalidades consagradas em tratado e nas negociações de fevereiro. Também é verdade. Mas por estar há anos sob chapéu de exceção é que a UE pode negociar com Londres em nome de um bem maior: manter os 28 e dar condições à irreversibilidade política do brexit. Terceiro, será legítimo "desrespeitar" um referendo, fazendo outro ou contrariando, no Parlamento, o seu resultado? Com os custos políticos, económicos, sociais e estratégicos que o brexit está e vai provocar, o interesse geral britânico justificaria considerar essa hipótese. Mas para tal precisa de apoio em Bruxelas. Infelizmente, não tem.

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Anselmo Borges

Premium A mística do quotidiano.1

As férias são um justo tempo para repousar do trabalho, mas elas deveriam ser também, como diz o próprio étimo, a experiência de que o ser humano é um ser festivo e, assim, na serenidade, serem o tempo de reencontrar tempo para a família e para os amigos, tempo para ouvir o silêncio, tempo para a poesia e para a música, que nos remetem para a transcendência. Isso: contemplar e criar beleza - é a beleza que salva o mundo, dizia Dostoiévski -, admirar uma simples folha de erva com o orvalho da manhã, ver o Sol nascer a oriente e pôr-se a ocidente, exaltar-se com o alfobre das estrelas - "Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior persistência delas se ocupa a reflexão: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim", escreveu Immanuel Kant -, dialogar com o Infinito. Em tempo de férias, é bom parar e ir ao essencial, para se poder evitar o pior: o desnorteamento, a desorientação, o vazio existencial. O essencial, de um modo ou outro, é em Deus que se encontra, mas numa experiência pessoal. Como no amor.