Onshore

Parece que há fortunas que escapam grosseiramente aos impostos em esquemas moralmente perversos mas não totalmente ilegais num esquema planetário com mais de 200 mil empresas offshore. Parece até que há branqueamento de capitais e financiamento a atividades condenáveis como o terrorismo ou o crime organizado. Pois, deem-me uma novidade, por favor. O grande mérito desta história não é tanto a matéria de facto em si, embora ela pareça conter o que é preciso para derrubar políticos, empresários, banqueiros, desportistas e artistas. Os grandes méritos desta história são sobretudo dois. Primeiro, ter sido desde a primeira hora (há um ano) tratada por jornalistas e não por hackers ao serviço de um egocêntrico tipo Assange. O que o jornalismo precisa são de equipas Spotlight que cumpram os trâmites deontológicos, sejam imbatíveis no rigor metodológico, credibilidade das fontes e precisão nos ângulos publicados. É isto que torna uma potencial boa peça jornalística num escrutínio credível e indispensável a todas as sociedades, democráticas ou não. E é isto que atrai leitores aos jornais. O segundo mérito é também sistémico, tal como a teia desmontada. O alcance geográfico e a dimensão do esquema arrastam consigo os sistemas de justiça nacionais e transnacionais, seja pela permissividade ou incompetência. Se o jornalismo tem uma função a cumprir nesta história, cabe à justiça deixar de ser cúmplice de uma economia paralela globalmente instalada e que vale anualmente o dobro do PIB de toda a UE. Quanto desse dinheiro não financia grupos como o ISIS e a Al-Qaeda? E quanto não iria para o Orçamento dos Estados? Claro que vale a pena ir ao osso. Mexe com poderosos? Certamente. É por isso que o jornalismo continua a ser tão importante e a justiça estrutural às democracias. No caso dos Papéis do Panamá, acredito mais no papel do primeiro do que na eficácia da segunda.

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