O veneno de Farage

Se tudo correr bem, Nigel Farage provará o próprio veneno no dia 23. O homem que vem assustando os conservadores com o seu enraizamento eleitoral (com sistema proporcional, o UKIP teria agora 83 deputados e seria o terceiro partido em Westminster), forçando Cameron a convocar este referendo, pode estar a um passo de dar a vitória ao campo adversário. Melhor dizendo, inimigo, que os tempos não estão para cavalheirismos. Já sabíamos que a imigração era o bode expiatório da campanha e que Farage, tal como outros incendiários, manipula o debate como lhe convém, mas um cartaz sobre refugiados repescando propaganda nazi é coisa que deve envergonhar qualquer defensor sério do brexit.
O problema destes, sobretudo os que têm destaque no partido conservador, é que deixaram Farage ser o seu porta-voz já nos tempos em que a UE se confundiu com crise da zona euro ou com a caótica gestão dos refugiados. Farage não lidera os backbenchers conservadores nesta campanha, há muito que cumpre esse papel, percurso que diz mais sobre o momento europeu do que parece e nem a palete de particularidades britânicas - no caso deste referendo, sobretudo inglesas - o ofusca.
Desde logo, a tendência vertiginosa de os partidos sistémicos da integração europeia (e os conservadores também o são) encostarem aos extremos por medo. Vemos isso em França, Suécia, Dinamarca, Eslováquia, Polónia ou na Áustria. Mais cedo ou mais tarde, o original apagará a cópia. Depois, o discurso maniqueísta e radicalizado absorvido por líderes que deviam lutar contra isso. Mais cedo ou mais tarde, a "coerência" ofuscará a plasticidade. Por fim, a ausência de soluções sensatas, moderadas e com apoio político alargado. Tomam-se adversários por inimigos e os inimigos da democracia como muletas táticas, até ao dia em que alienamos quem não devíamos e caímos no bolso de um qualquer Farage. Que não seja no dia 23.

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