O último apaga a luz

Nem com doses cavalares de cafeína era possível acompanhar a maratona discursiva no Senado brasileiro. Escrevo, por isso, antes de saber o resultado (previsivelmente anti-Dilma). Até porque, apesar das cambalhotas de última hora, o Brasil político e social já entrou na fase pós-Dilma. No entanto, desengane-se quem pensa que o sol brilhará como nunca e que Deus abençoará a classe política com senso, honradez e credibilidade à prova de bala: o pós-Dilma tem tudo para ser tão ou mais penoso. Desde logo porque o espetáculo a que assistimos nos últimos meses incendiou de tal forma o debate que qualquer moderação política terá perna curta. Com "golpe" ou "contragolpe", com "tchau querida" ou qualquer outro slogan, o respeito institucional na arena política caiu numa lama onde também já estava o novelo da podridão partidária que não poupa nenhum destacado político. Ou seja, sem Dilma, com Lula para vingar "o golpe" e o presidente interino embrulhado em esquemas, é provável que os ânimos aqueçam ainda mais e os juízes se vejam obrigados a despoluir a arena reforçando também eles um papel político de primeira linha. A segunda razão está centrada no exercício do poder de Michel Temer (mais ou menos inclusivo, com ou sem caça às bruxas, regenerador ou não da economia e dos pacotes sociais), uma orientação que traçará a linha entre uma candidatura vencedora em 2018 e o trambolhão antes do tempo. No primeiro caso, obrigará Lula a lutar com tudo, inflamando a clivagem social no eleitorado. No segundo caso, se ocorrer a partir de 2017, a eleição presidencial será feita no Congresso e não por voto popular, o que também ampliará o descontentamento nacional com a política. Em democracia, quando se entra no beco, a única escapatória é regressar quanto antes às urnas. Esperemos que Temer faça por isso.

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