O terrorismo espontâneo

A primeira e mais prudente leitura sobre o terrível ataque em Nice tem dois níveis de abordagem. O primeiro é a fórmula escolhida de destruição maciça: um camião numa zona repleta de nacionalidades e num dia festivo. A amplificação geográfica das mortes dá o cunho necessário à mensagem, ou seja, o alvo é a sociedade francesa, mas o objetivo é a propagação do medo multinacional. A utilização do camião também sugere o grau de naturalidade com que se projeta o terror: sem recurso a sofisticação mas a uma criatividade operacional capaz de contornar os níveis de alerta das sociedades europeias e os apertados circuitos de segurança. E para inviabilizar o sucesso da imaginação de um terrorista só mesmo entrando na mente dele. Como isso é praticamente impossível, resta aprimorar o conhecimento sobre os seus métodos e sobretudo sobre o que os pode inspirar. É precisamente aqui que entra o segundo nível de abordagem. Até agora não há nenhum indício de ligações do terrorista de Nice a organizações de primeiro plano da jihad global, como o ISIS ou a Al-Qaeda. Não há sequer nenhum cadastro que o incrimine de incitação ao ódio, glorificação do terror ou mesmo de uma rotina fundamentalista religiosa. Mais uma vez, aparentemente, estamos na presença de um terrorista espontâneo, suficientemente individualista para não deixar rasto que levantasse suspeitas. Isto é ainda mais complexo do que a monitorização de lobos solitários mais ou menos identificados, células conhecidas ou grupos com hierarquia a descoberto. A espontaneidade do terror é todo um outro programa, um grau acima numa galáxia que nos atormenta cada vez mais. Porque bebe de inspiração e não de treino, de um reconhecimento póstumo e não de recrutamento, da entrada no Olimpo do terror e não numa hierarquia ganha a pulso. A glória, para o terrorista de Nice, nunca seria possível de alcançar em vida.

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