O tempo e o modo

O levantamento das sanções económicas ao Irão é um bom exemplo do que pode ser conseguido se o tempo e o modo forem bem conjugados na diplomacia. O Irão tem vindo numa asfixia financeira. O PIB contraiu 9% entre 2012 e 2014, o desemprego jovem bateu nos 30%, o congelamento sobre os proveitos da exportação petrolífera atingiu os 150 mil milhões de dólares num setor que vale 80% do total das exportações, a moeda caiu 56%, a inflação chegou aos 40%, e a indústria automóvel teve uma quebra de 40% na produção. Num país com tanto potencial geoestratégico (pelo estreito de Ormuz passa 35% do tráfego petrolífero mundial feito por mar), energético (4.ªs maiores reservas de petróleo e 2.ªs de gás mundiais), comercial (80 milhões de consumidores) e humano (65% da população tem menos de 35 anos), todo o complexo edifício político iraniano precisava de inverter o declínio financeiro e coincidir a importância regional com o regresso à normalização externa, exigência feita pela imensa maioria jovem urbana que execrava o estatuto de pária. O Irão tem legislativas daqui a mês e meio. Só que nem tudo o que reluz é ouro e os ganhos do acordo são, à partida, maiores para o Ocidente. Primeiro, porque o barril a 30 dólares não permite nenhuma reentrada de leão nas exportações petrolíferas, antes exige um modelo económico mais diversificado e demorado. Segundo, porque o acordo prevê a reativação das sanções em caso de incumprimento de Teerão. Terceiro, porque o desmantelamento das centrifugadoras e a redução do enriquecimento de urânio limitam as alternativas ao petróleo. Por fim, porque para ser decisivo na Síria, Iraque e Iémen, o Irão precisa de robustez económica, porta que o acordo entreabre mas não garante. Se Riade está enciumada com a aproximação entre Teerão e Washington, Telavive devia saudar o acordo. É melhor ter o Irão debaixo de olho do que à solta.

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