O "reformismo" no Irão

A dupla eleição de amanhã para o Parlamento e Assembleia dos Peritos tem sido habitualmente descrita como decisiva entre reformistas e conservadores no pós-acordo nuclear. É uma forma simplista de olhar a questão. Se a dicotomia não define com rigor o complexo espectro político iraniano, também ilude sobre a importância capital desses dois órgãos. Para o bem e para o mal, o Irão é muito mais do que aquilo que vai a jogo amanhã. Não são poucas as vezes que definimos o presidente Rouhani como um reformista e que essa ala esperançosa vive no limbo do confronto com o séquito do líder supremo. Não é inteiramente verdade. Primeiro, Rouhani é acima de tudo um pragmático que percebeu a trilogia prioritária da salvação nacional - acordo nuclear, reabilitação económica, reinserção internacional -, mas nunca deixou de ceder aos setores mais duros do regime, seja protelando a libertação de presos políticos ou a igualdade de direitos das mulheres. Além disso, sujeitou-se a vetos sobre nomeações do executivo e voltou a chocar de frente com a eliminação prévia de milhares de candidatos "reformistas" às mãos do poderoso Conselho dos Guardiães. Sobre tudo isto, pestanejou pouco. Segundo, a amálgama hierárquica iraniana continua fiel ao prato da balança da linha teocrática e ultraconservadora, exposta na centralidade das decisões do ayatolah Khamenei e na coutada de poder dos Guardas da Revolução, das Basij, Conselho de Discernimento, Conselho dos Guardiães ou até da disputada Assembleia dos Peritos. Para termos uma ideia da competição para o órgão que elege o líder supremo, basta dizer que o filtro de candidaturas foi usado com especial requinte, com 80% dos nomes vetados mais uma vez pelo Conselho dos Guardiães e retiradas todas as mulheres da contenda. No Irão, a haver reformismo só mesmo quando o homem quiser.

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