O que motiva Bernie Sanders?

Temos dado atenção redobrada à corrida republicana, mas entre os democratas também se agitam as linhas tradicionais das últimas décadas. Se Trump está a 77 delegados da nomeação, Hillary está a 92. Lamento lembrar quem se tem entusiasmado com Bernie Sanders, mas não há a mínima hipótese de ele lá chegar. O que está a conseguir, além de continuar a disputa ideológica com o centro-direita do partido (chamemos-lhe assim), é motivar a ascensão de uma espécie de Ralph Nader nas presidenciais, levando os seus apoiantes a seguir um terceiro candidato ou a engrossar a abstenção. Vale a pena recordar que há tradicionalmente mais candidatos nos boletins do que o republicano e o democrata. Em 2012, por exemplo, foram seis, recebendo em conjunto à volta de dois milhões e duzentos mil votos, praticamente metade da diferença final entre Mitt Romney e Barack Obama. Num quadro de raiva antissistémica como o que atravessa o país político, não é de estranhar que tal escape possa ser encontrado num outsider. Em situação extrema, Sanders pode mesmo ser responsável por uma derrota de Clinton, tal como Nader foi para Al Gore quando este perdeu a decisiva Florida para George W. Bush, em 2000. Mas regressemos às primárias. A tacada final pode ser dada a 7 de junho na Califórnia (546 delegados), a maior fatia das primárias. Com as sondagens a favorecerem Hillary e sendo o sistema proporcional, o fecho vai ser decretado nessa noite. Que ganha então Sanders em desgastar Clinton? Nada mais do que o que o motivou a entrar na campanha: levar o partido para a esquerda, partir a preponderância das elites no resultado final, discutir o intervencionismo externo clintoniano, o financiamento de Wall Street, e cavalgar a onda anti-Washington. É verdade que tem conseguido tudo isto, mas também dado bónus a Trump. Veremos se não se irá arrepender.

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