O pior de dois mundos

Olivier Roy chama-lhe a "islamização do radicalismo", um acesso ao estatuto eterno conquistado por um banal radical. O ISIS faz o resto: o potencial da marca é mais atrativo do que a implantação territorial e qualquer coligação formada para minar as suas possessões cumprirá apenas uma ínfima parte da luta antiterrorista que se exige. O totalitarismo apocalíptico do ISIS faz o seu percurso por caminhos bem mais prosaicos, disseminando online um projeto de subversão de sociedades inimigas com distribuição de ódios por xiitas, cristãos ou curdos no Médio Oriente e no Norte de África, hindus na Ásia do Sul ou a comunidade LGBT numa qualquer cidade do Ocidente. Para derrotar o ISIS temos de ser capazes de implodir o seu lastro ideológico. É isto que atrai terroristas telecomandados como o de Orlando, que já nem precisam de treino na Síria ou no Afeganistão para acionarem o botão da destruição maciça de vidas. Outro ponto importante está na incapacidade de travar previamente alguém com uma mistura de sintomas identificados. O atirador de Orlando esteve na mira do FBI - por se ter intitulado próximo dos terroristas na maratona de Boston -, tinha perfil público de incitação ao ódio, fascínio pelo terrorismo islâmico e acesso a armamento militar. É incompreensível que mantivesse licença para tal ou sequer para trabalhar numa empresa de segurança. Tal como em tantos outros casos que terminaram em tragédias, também este estava identificado pelas autoridades. Sem uma absoluta revisão da lei das armas e a dessacralização da Segunda Emenda, amanhã teremos outro massacre nos EUA, este ano superior a um por dia. O que o ataque em Orlando expõe de diferente (tal como o de San Bernardino) é a mistura explosiva entre o fascínio por uma marca apocalíptica e o acesso livre a armamento por um qualquer indivíduo impregnado de ódios. Resultado? Ninguém está a salvo.

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