O país do futuro

No Brasil, recrutar políticos com cadastro limpo começa a ser tão difícil como encontrar uma agulha no palheiro, mas Michel Temer esmerou-se. O novo governo mais parece saído de um filme de gangsters, mesmo que parte tenha vindo do Congresso, o que torna tudo uma redundância. Entre indiciados na Lava-Jato - Temer à cabeça - ou noutros casos de corrupção, lavagem de dinheiro e desvio de fundos, sobram poucos com a ficha limpa. Numa pseudo-opção salomónica, Temer foi ainda repescar antigos ministros de Fernando Henrique Cardoso, Lula da Silva e Dilma Rousseff, tentando passar a ideia de unidade nacional intemporal, mas o que conseguiu foi expor a dimensão das patifarias num arco cronológico alargado. A credibilidade deste governo estava, por isso, enterrada à partida. Só há duas formas de evitar arder na fogueira da rua: primeiro, que a economia inverta o ciclo negativo e permita manter os pacotes sociais; segundo, que os processos judiciais em curso sejam metidos na gaveta por tempo indeterminado. Para quem acredita, como parece ser o caso de Temer, que o currículo do ministro das Finanças chega para cumprir a primeira hipótese, esquece-se de que a segunda é bastante mais plausível. Não será, por isso, pela súbita saúde económica que Temer passará de odiado a genial, mas porque atravessará pelos pingos da chuva toda a intempérie de casos lamacentos. Digo isto porque os sindicatos e a entourage do "golpe" vão bloquear com máxima raiva quaisquer cortes na despesa pública, novos aumentos de impostos ou as várias privatizações idealizadas, não dando qualquer margem ao executivo para se consolidar. Esta luta por reformas económicas poderia ter os seus méritos caso fosse proposta por políticos credíveis, sensatos e sem mancha no cadastro. Até eles darem à costa, o Brasil permanecerá um "país do futuro".

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