O novo normal

A história democrática espanhola tem assentado no bipartidarismo, mas isso não significa que nas 11 eleições que antecederam a de ontem tal característica tenha gerado maiorias absolutas do PSOE e do PP: aliás, só por quatro vezes isso aconteceu, duas para González (1982 e 1986) e duas para Aznar e Rajoy (2000 e 2011). Nas restantes sete ocasiões, o partido vencedor só conseguiu ser investido no Congresso com apoio de pequenos partidos, num quadro de negociação quase permanente em sede parlamentar. Ou seja, a negociação partidária não é um quadro novo em Espanha. A noite eleitoral de ontem tirou ainda Espanha do quarteto de países da UE com governos de maioria absoluta (Reino Unido, Malta e Eslováquia), transferindo-a para a normalidade dos acordos de coligação. Mas há dois pormenores que fazem desta uma eleição singular. Primeiro, nunca o partido vencedor tinha tido menos de 156 deputados nem o maior derrotado menos de 105. Segundo, o declínio bipartidário não é feito apenas à custa dos extremos, como o Podemos, mas por perdas ao centro, onde encaixa o Ciudadanos. À partida, vitalidade partidária não parece sinónimo de estabilidade política, até porque nenhuma das soluções mais lógicas a dois (PP/ /Ciudadanos; PSOE/Podemos) garante maioria absoluta na primeira votação de investidura. Só que a Constituição dá uma segunda oportunidade, 48 horas depois do chumbo inicial, para que o mesmo incumbente regresse ao Congresso, precisando aí apenas de maioria simples para ser empossado. Se todos os pequenos partidos se abstiverem, Rajoy pode regressar à Moncloa, com apoio do Ciudadanos e votos contra de PSOE e Podemos. Foi assim que Zapatero foi empossado em 2008, o único caso de investidura à segunda volta. Só que nada disto garante durabilidade ou coesão ao executivo e é hoje apenas mais uma hipótese plausível mas incerta. Espanha entrou no novo normal.

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