O mundo de ontem

Andamos de cliché em cliché até à derrota final. Começamos por ver a vitória de Trump como espelho da América rural contra a América urbana e progressista, dos descamisados contra as elites, dos excluídos da vida contra os bafejados pela fortuna, do branco contra o resto. A raiz da vitória de Trump é muito mais complexa do que isto e assenta sobretudo em dois grandes axiomas. O primeiro é o trumpismo ser o oráculo de uma visão substancialmente transversal na sociedade americana: com pobres e ricos, mulheres e jovens, brancos e latinos, elites e cidadãos comuns. Por isso escapou às sondagens e análises mais influentes, habitualmente focadas num modelo identitário e compartimentado do eleitorado. Os males da América (e da Europa) são muito mais profundos do que pensamos e estão só à espera de encontrar o populista de serviço.

Daqui partimos para o segundo axioma. Esta eleição ficou decidida no Michigan, Wisconsin e Pensilvânia por uma margem curta mas suficiente, todos com uma longa tradição de voto no candidato democrata. Hillary e a máquina partidária desprezaram de tal maneira esses "seus eleitores", foram tão altivos em pensar que iriam transpor automaticamente a plataforma de Obama que ali venceu duas vezes, que pouca campanha lá fizeram. O resultado foi este: mais de um terço dos counties que votaram duas vezes em Obama fizeram-no agora em Trump. Daqui resultam dois pontos: as feridas internas no partido democrata nunca ficaram saradas depois de 2008; e as primárias do partido em 2016 foram muito mais fraturantes do que se imaginou. Conclusões? O trumpismo existia antes de Trump e provavelmente vai sobreviver-lhe; e a plataforma identitária democrata (minorias étnicas, jovens, mulheres, creative class) evaporou uma agenda economicamente entendível ao clássico eleitor de esquerda em regiões industriais. Nesta lógica, o partido democrata vai aproximar-se muito mais da agenda Sanders do que da agenda Obama. Nem sempre os que perdem são os verdadeiros derrotados.

Uma outra vaga de clichés vê a política externa de Trump como um vazio de ideias, um mar de incertezas, um saco de atoardas avulsas sem ligação. Deixem-me discordar. Trump é, de facto, uma bizarria política na comunicação moderna mas as suas contradições discursivas só aparentemente o são. Se houve leque de ideias que marchou na campanha foi em política externa e, mesmo que o pragmatismo presidencial pareça estar a moldar algumas das propostas internas (Obamacare, segurança social, investimento público), não há nada que aponte para o mesmo ímpeto no exterior. A primeira orientação é de absoluta condescendência com o putinismo, uma passada disruptiva no Ocidente partidário, ao ponto de influenciar uma campanha americana. Aliviar sanções e reconhecer a soberania sobre a Crimeia podem andar a par de uma junta bilateral anti-ISIS mais evidente no Médio Oriente e Ásia Central. Pode não implicar tropas no terreno, mas chega para afirmar o poder militar americano e ir ao encontro de muitos republicanos no Congresso e de setores militares influentes. Em último caso, Trump pode até "auxiliar" Moscovo numa revisão total da segurança euro-atlântica, desvitalizando a NATO em favor de um novo acordo de segurança de Lisboa a Vladivostok.

A segunda é aplicar um modelo assumidamente transacionável nas relações internacionais, seja revendo unilateralmente tratados comerciais (NAFTA), dinamitando outros (TPP, TTIP) ou procurando uns mais assentes na força negocial americana do que num tronco de interesses comuns. O potencial de tensão comercial é, por isto, enorme, o que vai condicionar as relações de segurança habituais de Washington. A começar na Ásia/Pacífico - desprotegendo Seul e Tóquio - e a acabar na Europa, onde já se percebeu que Londres foi repescada para ilustrar o modelo de alianças da administração Trump: transacionar num quadro bilateral privilegiado; desvalorizar num arco multilateral tradicional. Quando Trump se referiu à NATO relativizando a cláusula de auxílio mútuo e confirmando a transação (europeus, paguem a vossa segurança), o que acaba por afirmar é um menor compromisso de Washington com a estabilidade europeia num momento de afirmação do modelo de Putin, além da disponibilidade em moldar muito menos os destinos do Ocidente. Trump não é só um nacionalista com o protecionismo no bolso, pode vir a ser o mago da implosão da ordem liberal liderada pelos EUA após 1945 e confirmada em 1989. Vinte e sete anos depois da queda do muro, num outro 9 de novembro, o Ocidente assistiu a um choque igualmente tectónico, desta vez de regressão da ordem vigente: a vitória de um roteiro político assente num ódio social legitimado a partir da Casa Branca, um líder do "mundo livre" sem pudor em namorar o iliberalismo, as fundações da ordem liberal descapitalizadas nos seus valores, e as alianças multilaterais que garantiram o sucesso integrado do Ocidente submetidas aos ditames de autocratas, populistas e nacionalistas encartados. Já estivemos mais longe de olhar para "o mundo de ontem" como Stefan Zweig.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub