O meu amigo Donald

Theresa May foi a primeira chefe de governo a ser recebida por Donald Trump, mas o que acabou por fazer não foi vincar o estatuto de "relação especial", mas expor três fraquezas gritantes. A primeira, ao apressar-se em levar um implícito pedido de desculpas ao presidente americano, depois de vários membros do partido conservador lhe terem enviado uns mimos durante a campanha eleitoral, que iam de "ignorante" para cima. Um dos mais audíveis foi o atual ministro dos negócios estrangeiros, Boris Johnson. A segunda, por novamente se apressar em receber o afeto público do senhor Trump, depois de este ter mostrado uma preferência especial por Nigel Farage, sugerindo o seu nome para embaixador em Washington, ou quando os dois se deixaram fotografar de polegares em riste. Na lógica política de Theresa May, as principais disputas internas já não se fazem com o Labour mas com o UKIP, sabendo-se como as empatias pessoais têm estado no centro da história da "relação especial". May acaba por reconhecer que Farage tem vantagem na relação com a nova administração americana. A terceira, por mais uma vez mostrar pressa num acordo bilateral comercial que possa, certamente com outros celebrados no futuro, compensar a saída do mercado único europeu. Sobre esta dimensão vale a pena perdermos algum tempo.

Mais uma vez, Theresa May vem confirmar que não tem nenhuma alternativa sólida à saída da UE, numa sequência de factos que passou nas últimas duas semanas pelo seu discurso sobre o brexit, pela intervenção em Davos, e pela decisão do Supremo Tribunal britânico em vincular o Parlamento ao pedido formal de retirada da UE. Em Londres, May assumiu o princípio da desvinculação total e rápida. A questão é saber como será a primeira e se garantirá a segunda, pois uma determina o grau de perdas económicas e financeiras sofridas no processo e a outra a liberdade formal para celebrar acordos comerciais bilaterais. Se pensarmos que amanhã, em Frankfurt, duas dezenas de bancos com sede em Londres se reúnem com o regulador financeiro alemão para saberem as condições para operacionalizarem uma mudança, e que nenhuma análise realista prevê ser possível em dois anos fechar um acordo de retirada com os restantes 27 Estados membros, percebemos o beco para onde May está a levar o Reino Unido.

Em Davos, a primeira-ministra falou sobre um "Reino Unido global", "defensora do livre-comércio", termos que colaram ao discurso do presidente chinês. Mas, se assim é, como se compaginam os interesses deste Reino Unido universalista com a "América primeiro" de Trump? Se Londres está desesperadamente à procura de alternativas comerciais ao proveitoso mercado único da UE, é legítimo duvidar de que a administração Trump possa ser o parceiro mais vantajoso numa mesa negocial. E nesta lógica de extensão de prazos para a saída da UE, se May não apresentar entretanto nenhuma alternativa credível e sustentada, não revelar ganhos negociados bilateralmente (violando assim os tratados e quebrando a reserva negocial) e não conseguir suster a deslocalização de empresas e serviços, não só tem o lugar em risco como mina a rota do brexit que o governo conservador defende. Se atendermos à lógica comercial enunciada por Trump - implacável, inflexível, sempre vitoriosa - dificilmente May poderá alguma vez apresentar um acordo bilateral futuro como um sucesso e uma afirmação geopolítica pós-UE. Paradoxalmente, se na narrativa pública Trump não poupa elogios ao brexit, na prática pode até vir a ser o seu coveiro, isto se ainda estiver no cargo quando a saída for oficialmente concluída e Londres puder, também legalmente, assinar acordos comerciais bilaterais.

Parto do princípio de que Trump quer mesmo que o brexit aconteça no seu mandato, a tempo de apresentar um acordo com Londres como escapatória exequível à UE. No fundo, incentivar a desintegração europeia, promovendo vários acordos bilaterais, todos eles invariavelmente mais vantajosos para Washington. Dividir para reinar, sem se preocupar com a história da Europa. Este cenário não é improvável, mas tal não garante que o acordo com Londres venha a ser melhor para os britânicos do que para os americanos. Aliás, dificilmente Trump pode apresentar aos seus eleitores um tratado comercial que não seja uma vitória total para os americanos, sob pena de gerar uma onda contra si, penalizar os republicanos nas eleições para o Congresso do próximo ano e até pôr em causa a reeleição.

É por isto que inverter este cenário de desmembramento ocidental passa por fazer o possível para que May falhe e o brexit seja reversível. Que o Reino Unido permaneça e a estratégia de Trump seja derrotada. Para isso vamos ter de fazer os impossíveis para ultrapassar os ciclos eleitorais europeus, mostrando ser viável que candidatos pró-UE, pró-NATO e pró-globalização podem derrotar os nacionalistas, legitimando assim um quadro pragmático de reformas que oxigene um pouco o debate europeu, dê outra margem a uma cooperação agora liderada por políticos com legitimidade reforçada, de forma a pôr não só os Orbáns desta Europa no lugar deles como a projetar para fora outra credibilidade e músculo num tempo em que é absolutamente vital assumirmos em que Europa queremos estar: se na do cosmopolitismo ou do nacionalismo, se na da coesão ou da desintegração, se na da prosperidade ou da exclusão, se na da estratégia ou do voluntarismo. Portugal, que ontem acolheu a cimeira dos países do Sul, não deve hesitar um segundo sobre de que lado estar.

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