O mesmo filão

A prudência diz-nos para não acreditarmos nas sondagens depois dos últimos sobressaltos no Reino Unido e nos EUA. Vou seguir a lógica ao olhar para a segunda volta das primárias republicanas em França e para as várias combinações projetadas para a segunda volta das presidenciais de 7 de maio de 2017. À partida, a corrida entre Juppé e Fillon parece agora inclinada para este último, até pelo apoio dado por Sarkozy. Digo inclinada porque há duas semanas a vantagem de Juppé era suficientemente confortável na comparação interna e nas projeções contra Le Pen.

Recuemos. A primeira interrogação sobre as reviravoltas anglo-americanas é por que é que elas têm escapado à análise quantitativa e política nos últimos tempos? Uma explicação para a volatilidade do voto não militante é que a personalidade do político se sobrepõe hoje a qualquer pertinência programática das ideias. Estamos a atravessar uma fase em que a performance individual, seja na televisão ou nas redes sociais, é muito mais valorizada do que a verdade do conteúdo transmitido. Isto cria uma apetência voraz pela forma e teatralidade, desvalorizando o método e a razoabilidade das propostas. Há eleitores que não estão interessados na verdade, só querem encontrar o oráculo para as suas angústias. Claro que isto não é novidade, o que é relativamente novo é existir um alinhamento em potência que premeia esta receita eleitoral num quadro influente de democracias liberais. Estamos a votar em esforço e não por convicção, e a fazer opções negativas em vez de alinharmos por mínimos indispensáveis de civismo político.

Aparentemente, este argumentário não coube nas primárias francesas, em que, apesar das nuances ideológicas, o debate decorreu com respeito e conteúdo. O que elas revelaram é a vantagem dada pelo discurso identitário a um candidato, mesmo que este não seja uma novidade ou um antissistémico de pacotilha. Tanto Juppé como Fillon já foram, entre outras coisas, primeiros-ministros. Juppé, aliás, entrou na política quando Jimmy Carter chegou à Casa Branca. São ambos protótipos da mais clássica política sistémica tão condenada nas urnas. Os dois têm uma propensão para valorizar a ordem, a lei e um governo limitado, embora Juppé proponha outra cadência reformista e Fillon uma aceleração tão abrupta como apreciada. Por quem? Sobretudo pela burguesia rural católica, em idade avançada, próxima do patriotismo gaullista, fiel ao conservadorismo social, e profundamente revoltada com a legislação progressista de 2012-2013. É neste quadro de valores que Fillon ganha vantagem e é visto como garantia de bloqueio à vitória de Le Pen. Por um lado, o seu programa económico estabiliza a base eleitoral de centro-direita liberal e urbana. Por outro, a matriz católica que emprega à política - dedicou-lhe um capítulo do seu livro de campanha (Faire) -, a rejeição da natureza multicultural da França, e a defesa sem rodeios da proximidade a Putin, são bandeiras estruturais a muitos eleitores da Frente Nacional. O que é que isto nos diz? Que no caso de Fillon e Le Pen passarem à segunda volta teremos algumas propostas diferenciadoras e muitas que se irão sobrepor.

Ora, este é um dos problemas das fórmulas forjadas para conter a ascensão do radicalismo: dar-lhe uma roupagem menos estridente, sem nenhum projeto verdadeiramente alternativo. A esmagadora maioria dos que não podem ver as caras do costume vindas do circuito habitual de recrutamento político vão, mais cedo ou mais tarde, escolher os originais às cópias. E, mesmo que adiemos esse cenário com uma eleição-tampão, quem vencer terá de ser consequente com as ideias que alimentou, sob pena de na eleição seguinte a versão original ganhar com estrondo. É isto que me inquieta nestas primárias francesas: a valorização da veterania partidária (Juppé e Fillon) e do nacionalismo identitário (vencendo Fillon).

Por isso, a candidatura mais interessante em marcha para as presidenciais de 2017 não está à direita, mas também não cabe no espartilho habitual da esquerda. Não encosta ao radicalismo empedernido de Mélenchon, ao estatismo de Montebourg, nem ao imobilismo esfíngico de Hollande. Não tem grande histórico partidário, mas experiência de poder suficiente. Nasceu quando Jimmy Carter chegou à Casa Branca, ou quando Juppé entrou na política, é um candidato independente sem hostilidade aos partidos, embora com discurso regenerador. É europeísta e abraça a globalização, afirmando-a como o elemento divisório da política atual: quem ficou excluído tende a entrincheirar-se à perna dos demagogos; quem beneficiou deve fazer a crítica aos seus defeitos e procurar moldá-la positivamente. Emmanuel Macron, 38 anos, ex-ministro da economia de Manuel Valls, percebeu antes dos outros o que vai marcar a política a médio/longo prazo: médias e grandes cidades como polos das economias digitais e tecnológicas geradoras dos empregos do futuro próximo, a necessidade de interligar o crescimento urbano com o meio ambiente e a livre circulação de pessoas, e fazer do seu conjunto nacional a força de um país moderno, cosmopolita, amigo da economia aberta e um ator mais preponderante na política internacional. Ou seja, tudo o que a França parece não querer ser. O melhor que lhe podia acontecer era a frente republicana aliar-se, não a Fillon, mas a Macron contra Le Pen numa segunda volta. Mas sobre projeções vos digo, nos próximos anos não me atravesso com nenhuma.

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