O lugar do rei

À entrada da semana em que o rei Felipe VI ouvirá cada um dos partidos, são pelo menos três os pontos que definem neste momento o quadro espanhol. O primeiro é o cenário de terceiras eleições que ninguém quer provocar. Tirando o Podemos, que não se importa de nadar no caos, PP, PSOE e Ciudadanos estão na linha da frente das responsabilidades exigidas pelos espanhóis. Falhar agora a investidura de um governo teria necessariamente efeitos nas atuais lideranças partidárias e cavalgaria a onda antissistémica que tem aguentado eleitoralmente o Podemos e alimentado outras geografias na Europa. Partindo do pressuposto de que não há lugar a terceiras eleições e que um novo governo entrará em funções entre agosto e setembro, faltam ainda dois pontos a merecer atenção. Um deles é a pressão sobre o PSOE para que se abstenha no segundo debate de investidura e permita a Rajoy chefiar um governo minoritário. É isto que fará o Ciudadanos e que Rivera vai pedir ao rei. Nesse caso, Rajoy só precisa que o sim ultrapasse o número de nãos para iniciar funções. Uma reviravolta do PSOE é por isso o centro do problema: se a protagonizar, fragiliza Pedro Sánchez perante o aparelho, se não a fizer cairá sobre o partido o ónus da continuação do bloqueio político espanhol. É aqui que entra o último ponto da minha argumentação: o papel pouco debatido do rei nesta encruzilhada. A sua coroação foi uma rutura geracional e uma oportunidade para regenerar a instituição monárquica, mas deu--se num pico interno de tensão identitária, reformulação partidária e prolongado bloqueio político. Se o tempo molda o legado de um político, o modo como executa a sua função arbitral definirá, no caso do rei, o lugar da monarquia num sistema constitucional em mutação. D. Felipe também não tem margem para falhar.

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