O Leste é aqui

Talvez por ter sido a 23 de agosto, passou ao lado da maioria da imprensa o encontro de Macron, em Salzburgo, com três primeiros-ministros da Europa Central e de Leste (Eslováquia, República Checa e Áustria), uma iniciativa que, à primeira vista, parecia apenas procurar garantir apoio à diretiva comunitária sobre a equiparação de salários no mesmo setor de atividade entre nacionais de um Estado membro e trabalhadores vindos de outro, mas que acabou por ter dois efeitos políticos mais alargados. O primeiro foi projetar Macron como um defensor da paridade laboral, salarial e de circulação numa área da Europa onde o tema é sensível e está na ordem dia no quadro das negociações do brexit. O segundo foi separar os quatro de Visegrado ao não ter sequer reunido com os líderes da Polónia e da Hungria. Esta semana, em Budapeste, vários analistas questionavam-me sobre o impacto do périplo do presidente francês (seguiu depois para a Roménia e para a Bulgária) neste xadrez europeu em formulação. A minha resposta não podia ter sido outra: não ouvi praticamente ninguém abordar o assunto na imprensa da Europa Ocidental.

Macron tem uma agenda europeia clara, dinâmica e em marcha. Precisa de apoios entre os membros da zona euro - o centro político do seu projeto de integração europeia -, da concordância alemã e de partir supostas zonas tampão em crescendo de desconfiança face a um federalismo macroniano em curso. A maior delas está arrumada e chama-se Reino Unido: em debandada, Londres permite a Paris ser o pivot da Europa pós-brexit, motivando-a a liderar reformas que outros tenderão a seguir, ou seja, voltar a confundir a ideia de França e a ideia de Europa no mesmo desígnio. A segunda zona tampão problemática reúne os quatro de Visegrado (longe de ser um grupo coeso) numa deriva perigosa de concentração e abuso de poder, clientelismo, nacionalismo identitário e violação do Estado de direito. Partir o grupo foi a estratégia que Macron levou a Salzburgo, precedente que abriu as portas a nova divisão entre Bratislava e Budapeste na aceitação da decisão do Tribunal de Justiça Europeu sobre as quotas para refugiados.

Se Merkel já disse em campanha que endurecer a posição alemã e comunitária face a Orbán está em cima da mesa (imediatamente contrariada pelo ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble), Macron fez pela via diplomática o que a chanceler tem feito pela declamação. A verdade é esta: se o governo alemão quisesse mesmo pôr Orbán na ordem já o poderia ter feito via PPE ou através de condicionamento comercial, tal é a dependência húngara. Ao nunca ter ido por aqui, deixando crescer o poder de Orbán, acabou tacitamente por aceitar o seguinte corolário: o reconhecimento de uma UE a "várias velocidades" e com diversos círculos de integração implica viver e aceitar áreas semiautocráticas na frente Leste.

De certa maneira, este raciocínio acaba por projetar o espaço da zona euro como o único que mantém vivos os pilares da integração, num jogo de espelhos com quem não pertence à moeda única, o que acaba por definir muitos deles como renegados de um processo que não conseguem acompanhar. Esta mensagem não tem grande adesão em países ricos como os escandinavos, mas acaba por ter impacto em países dependentes do orçamento comunitário, como os de Leste. Por um lado, poderia funcionar como fator de incentivo para que passassem a cumprir os critérios de pertença, acelerando até a entrada na moeda única. Mas, por outro, tem levado os respetivos governos nacionalistas a municiar o debate com a sua postura identitária de constante vitimização face a um opressor/invasor externo. Neste âmbito, Orbán é mais sofisticado na leitura que tem da psicologia social magiar do que a grelha com que o vemos de fora. O afastamento muito recente da Eslováquia e da República Checa do concerto nacionalista com a Polónia e a Hungria prova que há margem para aproveitar essa duplicidade de efeitos que a centralidade da zona euro pode provocar.

Não há dúvidas de que Macron já percebeu que a sua agenda para o espaço a 19 da moeda única lhe dá a liderança de que precisa para internamente pôr em marcha o seu plano económico e passar a liderar sem rival (Reino Unido) a defesa europeia. Ao que parece, Itália e Espanha estão afinadas com Paris, deixando a Berlim a palavra final sobre os termos e o calendário das reformas (orçamento, ministro das Finanças, transferências financeiras, obrigações comuns, fundo monetário europeu, etc.), os quais só podem ficar definidos conhecida a composição do próximo governo alemão e se perceber se Schäuble manterá a pasta das Finanças. Se a grande coligação se mantiver (e é preciso perceber a qual a força do SPD) esse roteiro fica mais facilitado, embora sempre sujeito a um intenso debate interno. Se vingar outra constelação governativa (integrando um FDP forte), então vai ser mais difícil marchar com Macron.

Lisboa precisa de acompanhar tudo isto ao minuto. O centro de gravidade da integração europeia será cada vez mais a zona euro e as regras que acomodarão o seu aprofundamento ditarão o grosso das opções políticas em cada um dos seus membros. Quem não as discutir ou influenciar pode sempre continuar a bordo, mas fá-lo-á numa posição diminuída. O que se passa em Budapeste, decide em Varsóvia, discute em Berlim ou está em marcha em Paris é crucial ao futuro de Portugal. Discutir integração sem uma visão integrada da política europeia é uma receita votada ao fracasso.

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