O juiz

A última vez que o Senado se recusou a votar o nome escolhido pelo presidente para juiz do Supremo foi em 1875, o que reforça a ideia de que o comportamento republicano no atual tempo político é anacrónico. Os bloqueios que foram montados a Obama só por muito boa vontade encaixam na categoria de contrapesos, tal foi a lógica destrutiva que moveu a maioria republicana no Congresso. A questão é o que acontecerá se os democratas recuperarem o Senado. Uma das prioridades será dar início à audição de Merrick Garland, o juiz escolhido em março pela Casa Branca para suceder ao falecido Antonin Scalia, e que ao ser aprovado desempatará a balança de oito juízes em favor do campo liberal. Claro que se Hillary vencer pode abdicar de Garland e escolher alguém mais marcadamente à esquerda, mas isso consumir-lhe-ia tempo e desgastá-la-ia mais e este não é o momento para empreitadas desnecessárias. Mas em que é que isto é relevante para o sistema político e para o próximo presidente? Tocqueville dizia que tudo o que começa político acaba jurídico, pelo que o Supremo manterá em mãos uma série de disputas ideológicas num tempo desfavorável ao entendimento partidário. Mais importante do que tudo, dada a veterania de vários juízes, é a hipótese de nos próximos quatro anos alguns deles renunciarem e a sua substituição sintonizar a agenda do presidente com o principal tribunal do país. Claro que isto é válido para Trump como para Clinton, mas não vale a pena esconder que o trumpismo político advoga legislação contrária às liberdades individuais, direitos civis, limites ao financiamento das campanhas ou à massificação do acesso à saúde. Se a tentação for subjugar o Supremo, esvaziando a separação de poderes e abrindo uma crise constitucional, então a próxima administração não terá um segundo de paz. Esta não é mesmo uma eleição igual às outras.

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Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

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Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

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Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.