O início da Putinlândia

Todas as soluções para a Síria serão sempre as possíveis, as menos más e nenhuma resolve a médio prazo, quanto mais a curto, o drama humanitário que dura há cinco anos. Não vale a pena por isso termos expectativas altas sobre rondas negociais ou promessas de cessar-fogo, como a anunciada ontem em Munique, prevista começar a 1 de março. Isto não significa que negociações e tréguas não preferíveis à continuação dos combates, mas é preciso realismo: nem Moscovo nem Washington estão em condições de impor uma solução milagrosa e duradoura. Contudo, no quadro desta parelha, é Putin quem está claramente em vantagem. Até 1 de março, Moscovo terá garantido que Assad não mais será tirado do futuro sírio e que os interesses estratégicos russos estarão intactos no Mediterrâneo Oriental. Vou até mais longe: nenhum líder sunita no Médio Oriente, a começar em Ancara e a acabar em Riade, vai novamente agir na região sem ter em conta a posição e os interesses da Rússia. Desta forma, Putin consegue dois objetivos de rajada. Primeiro, equilibrar-se aos EUA como grande (des)equilibrador externo no Médio Oriente. Segundo, congelar e até anular progressivamente as sanções da UE. Ou seja, a Síria acaba por ser um meio para a Rússia chegar a um fim, esse sim, identitário: manter o lume aceso na Ucrânia, impedindo-a de aderir à UE e à NATO, e esfrangalhar ainda mais a já pouca coesão europeia. Ao ritmo a que a aviação russa e as tropas de Assad estão a conquistar a decisiva Aleppo, é possível que cheguemos a março com avanços maciços de Assad/Rússia/Irão, descontrolo do fluxo de refugiados pela Turquia, tropas sauditas no apoio à sobrevivência de grupos sunitas, e o ISIS estabilizado na Síria e em avanço na Líbia. Qualquer cessar-fogo é positivo, mas isso não quer dizer que os seus efeitos políticos sejam medidos pela mesma bitola.

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