Ilusão no Alabama

A singular eleição para o Senado, disputada há dias no Alabama, tem gerado uma onda de optimismo sobre uma vaga anti-Trump em curso capaz de inverter as maiorias republicanas no Congresso nas intercalares de novembro de 2018. O lugar aberto pela subida à administração de Jeff Sessions não terminou com uma sucessão dentro da linhagem republicana e, assim, pela primeira vez em vinte e cinco anos foi eleito um democrata. Claro que há um efeito colateral imediato em Trump, mas para além de ele estar completamente acostumado a isso e a muito mais por dia, falta um ano para as intercalares que podem vir a influenciar decisivamente a segunda parte do mandato. Não quero tirar entusiasmo ao momento até porque o partilho -, mas o horizonte não é tão azul como muitos estão a pintar.

Contudo, há bons argumentos a acomodar esse entusiasmo democrata. O primeiro diz-nos que o partido do presidente em exercício é penalizado em mais de 90% da história das eleições intercalares a votos vão toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. O segundo revela-nos que a apreciação feita pelos eleitores sobre a prestação dos congressistas democratas é nesta fase mais positiva (um em três) do que a feita aos republicanos (um em cinco). E em terceiro, existe um cada vez mais evidente choque ideológico e de agendas no partido republicano, dado que praticamente todos os seus senadores que irão disputar a eleição ou a reeleição terem à perna políticos locais de extrema-direita que querem a nomeação do GOP em processos de escolha interna. Acresce a este enquadramento a singular baixa popularidade de Donald Trump, o desgaste avassalador que a sua agenda e comunicação lhe provocam, o clima permanente de conflito de interesses e ilegalidades protagonizado pelo seu círculo próximo, e a ineficácia de muita da legislação anunciada, o que pode motivar alguma desmobilização.

Mas os ventos da história eleitoral e os termos do enquadramento político vigente não são, como sabemos, suficientes para celebrar a vitória de uma alternativa democrata. A principal razão é que pura e simplesmente ela não existe a um nível federal, mesmo que aqui e ali possamos ver alguns a causar agradáveis surpresas, como Doug Jones no Alabama. E também sobre isto existem motivos que justificam essa inexistência de alternativa.

O primeiro resulta de um problema de organização do partido. Sobre isto é importante dizer que Obama teve uma enorme responsabilidade na desvalorização e descapitalização política do Comité Nacional Democrata em detrimento do protagonismo dado ao Organizing for Action, a sua máquina partidária sempre muito mais activa na defesa dos seus interesses e campanhas do que em acrescentar força, unidade e experiência ao CND. Talvez por isso não surpreenda que um terço dos eleitores que estiveram com Obama em 2008 e 2012 em estados decisivos da Rust Belt (Michigan, Wisconsin ou Pensilvânia) votaram em Trump em 2016: as feridas internas com o elitismo clintoniano nas primárias de 2008 nunca ficaram saradas. Como se não bastassem estas distintas agendas identitárias nunca consolidadas numa frente de coesão partidária, surgiram outras, agora nas primárias de 2016, entre agendas económicas distintas, opondo o anti-establishment de Bernie Sanders e um híbrido progressista difícil de aceitar protagonizado por Hillary. Um ano depois, nada disto está sanado, organizado e perceptível na mensagem.

Dir-me-ão que essa mescla de agendas não podia ter outra roupagem dada a heterogeneidade da plataforma democrata e as realidades muito próprias que distinguem os estados da Rust Belt a recuperar e os da Sun Belt a conquistar ou a consolidar (Carolina do Norte, Arizona, Novo México). Não podia estar mais de acordo: a tarefa dos democratas é muito mais complexa do que a dos republicanos, que têm uma agenda muito mais estável, simples e compreensível tendo em conta a ausência de uma plataforma eleitoral tão heterogénea e fragmentada. Precisamente por isso é que, a um problema de organização, o partido de Kennedy, Johnson, Clinton e Obama, tem um problema de foco e credibilidade na agenda.

Para ter sucesso nas intercalares, o partido tem de encontrar localmente políticos cuja genuinidade seja colada a agendas específicas do estado, ou seja, mais próximo dos problemas identitários das minorias que compõem a plataforma democrata na Sun Belt (à cabeça o eleitorado feminino), ao mesmo tempo que precisa de acompanhar de perto a transformação económica em muito estados do sul e que tem atraído muitos eleitores brancos da classe média -alta que, devidamente motivados a votar, podem travar o sucesso republicano. A mesma natureza de recrutamento deve ser aplicada à Rust Belt, onde a agenda de recuperação económica com um cunho mais presente do Estado até facilita a adesão aos democratas. Como um dia disse Joe Biden, é politicamente mais vantajoso salvar a General Motors do que matar Bin Laden. O problema é que o ritmo da recuperação no Midwest nos anos de Obama, anos de pico e ressaca da grande crise financeira, não tiveram em Hillary o mensageiro adequado. Foi aí que Trump tocou o gongo. E até agora, depois de Hillary, ainda nada.

Organização, agenda e rostos, são três problemas graves dos democratas. A nível presidencial, não há ninguém com dimensão nacional e posicionamento político entusiasmante capaz de virar a página do trauma de 2016. E se para a Câmara dos Representantes haverá muito desperdício de votos democratas nos grandes centros urbanos, 25 dos 33 senadores a reeleição são do partido, dando à narrativa de choque e pavor da oposição trunfos neste clima de polarização. Espero que o Alabama não tenha sido uma simples excepção à regra.

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