O empurrão do rei

O rei decidiu não arrepiar caminho e deixou correr os prazos constitucionais. Ao optar por uma leitura restrita da lei fundamental, Felipe VI acabou por tocar três notas de uma assentada: retira-se momentaneamente do papel definidor dos timings políticos, concede novo espaço aos três partidos que manifestaram interesse em conversar (PP, PSOE e Ciudadanos) e implicitamente permite que Mariano Rajoy se desgaste como pivô dessas negociações.

Por que digo isto? Porque Rajoy, ao querer forjar uma grande coligação tripartida (e à partida impossível com estes protagonistas), põe em cima da mesa a habilidade política que não possui, além de ter de lidar imediatamente com a exigência do Ciudadanos para que saia de cena e permita que uma solução vinda do interior do PP abra espaço à negociação. Rivera tem um nome: Cristina Cifuentes, a iconoclasta presidente da Comunidade de Madrid, capaz de fazer pontes com o Ciudadanos e, eventualmente, com o PSOE. Ou seja, Rajoy tem tudo para falhar novamente e a verdade é que o rei de Espanha não fez muito para lhe amparar a queda. Sánchez e Rivera não o suportam, muitos no PP não desdenhariam pô-lo de lado e a ideia que já circula de um congresso para maio - tal como o do PSOE - antecipa agitação prévia às prováveis novas eleições de junho.

Só que hoje há duas diferenças extra entre Rajoy e Sánchez capazes de gerar bastante mais atrito no PP do que no PSOE: ao contrário de Rajoy, Pedro Sánchez tem estruturada uma plataforma de entendimento com o Ciudadanos, além de ter reforçado (e não fragilizado) a sua liderança ao enfrentar duas votações de investidura. Ao contrário de Rajoy, que se escudou ao que lhe competia, Sánchez procurou, negociou e tentou apoio parlamentar. E a verdade é que se o PP se tivesse abstido, seria hoje primeiro-ministro. Se Rajoy já estava em declínio, Felipe VI deu-lhe agora um empurrão.

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