O dia D da minha geração

O longo debate entre Macron e Le Pen consolidou o perfil presidenciável do primeiro, expôs as inconsistências das propostas da segunda, mas não fechou as contas das presidenciais. A boa notícia é que a juventude de Macron foi capaz de provar como se derrotam anos e anos de experiência populista: com coragem argumentativa, olhos nos olhos, pelos méritos do seu programa e pela desmontagem da agenda simplista contrária. Foi preciso aparecer um imberbe político de 39 anos para mostrar como se faz aos veteranos temerários moderados que pairam na política europeia. A experiência da guerra, da expansão comunista e de outras ditaduras não lhes chegou para se baterem com todas as forças contra a ameaça de um retrocesso civilizacional em curso? Teve que aparecer alguém sem vivência desses infernos para colocar o debate no sítio certo e esgrimir um argumentário pela defesa inegociável das democracias liberais e pluralistas? Que lição, meus senhores. É por estas e por outras que quando alguém quer despontar para a política ou defender a União Europeia pelo que nos trouxe de positivo, e só vê à volta vencidos da vida transformados em oráculos dos comunicados políticos, dá meia volta e segue a sua vidinha. Do que a Europa precisa é de mais Macrons, Renzis, David Milibands, Albert Riveras e Jesse Klavers, não é de Junckers, Corbyns, Berlusconis, Sarkozys, Hollandes e demais personagens que estão bem é em museus de cera.

Voltemos ao debate. Muitos dos desesperados que aderem à falange de Le Pen por pura emoção política continuam a precisar de soluções realistas, um caminho para os seus filhos e netos, uma ideia de França para o futuro e não um regresso ao passado que só volta mesmo sob a forma de tragédia. Le Pen tem-lhes vendido o céu, mas é preciso dizer-lhes que o que lhes trará é o inferno. Assim, desfazer a unidade do bloco nacionalista é uma tarefa impressionante, mas não é impossível se Le Pen (e correligionários europeus) escorregar permanentemente nela própria, for encostada à parede no debate público e muitos chegarem à simples conclusão de que a sua agenda é de pura negação, não constrói nada exequível nem sustentado no tempo. De qualquer forma, o objetivo de Macron não era conquistar eleitores à Frente Nacional, quando muito apenas deslaçar a sua coesão.

É provável que não atinja o objetivo esta noite, mas lançou a fórmula para o patamar seguinte: as legislativas de Junho. Porquê? Se Macron chegar ao Eliseu precisa de o fazer com uma vitória que valide a tendência estabilizada nas sondagens que lhe têm dado 60% no mínimo. Abaixo disto é um balde de água fria e pode ter impacto a dois níveis: uma presidência assente numa frente republicana anti-Le Pen com força política abaixo da expectativa e muito longe do resultado de Jacques Chirac contra Jean-Marie Le Pen (82%, em 2002); alguma desmotivação dentro do movimento En Marche para enfrentar, com êxito, as legislativas. Para já, as sondagens dão-lhe um resultado excelente para junho, tal como aos Republicanos, o que conduz este diálogo entre a novidade e a tradição do centro-direita à possível chave da governabilidade de França e dos termos do seu papel na integração europeia pós--brexit. Por outras palavras, o debate de quarta-feira contribuiu para estabilizar as intenções de voto em Macron, dar-lhe projeção programática para as legislativas e estabelecer as pontes necessárias com a direita de François Fillon. A amplitude da influência de Macron na governação só ficará ditada pelo resultado de hoje e pela dinâmica que criar para junho. Vamos, por isso, por passos, e o primeiro é esperar pelo voto dos franceses.

Até lá, abro o cenário oposto. Se houver uma reviravolta que dê a vitória a Le Pen (abstenção maciça, maioria dos órfãos de Fillon e Mélenchon com ela, desmobilização da base En Marche e da anti-Le Pen após a libertação de milhares de e-mails sobre Macron), a bolsa vai cair a pique, a fuga de capitais atingirá um pico histórico, as instituições europeias e vários governos europeus reunirão de emergência, o euro terá o cutelo na garganta e o espectro da ingovernabilidade reinará em França. Não é preciso lembrar a total vulnerabilidade financeira que se abaterá sobre Portugal, Itália, Espanha e Grécia, nem a falta de rede na zona euro para enfrentar um turbilhão destes. A motivação da falange nacionalista subirá exponencialmente para as legislativas e aquilo que parecia ser um quadro de alguma estabilidade política torna-se num sufoco institucional. A coabitação será um bloqueio permanente no Estado e nas instituições, a rua dará sinal de si e os terroristas aproveitarão as brechas numa vulnerável segurança nacional. Ao contrário do que vende Le Pen, uma presidência sua só torna a França e a Europa mais insegura e pobre.

A prova disto é o ciberataque cirúrgico contra Macron a 48 horas da ida às urnas. Não é que toda a gente não estivesse alertada, tendo em conta o que aconteceu na campanha americana e o alarmismo das autoridades alemãs na antecâmara das legislativas de setembro, sinais seguidos ao segundo aqui em Paris, como ontem me diziam várias pessoas ligadas à comunidade que faz a política externa e de defesa francesas. O que tudo isto nos diz é que a marcha cibernética russa, já para não falar no apoio financeiro e político à FN, continua a grassar nas democracias ocidentais com o objetivo de consolidar um eixo nacionalista anti-UE. Além disso, hoje temos Trump a elogiar Farage, Erdogan, Le Pen e Duterte. Putin a tentar alterar a dinâmica eleitoral em Washington, Paris e Berlim. Temos menos Londres na Europa e Berlim a mais. Se ficarmos sem Paris, será o fim deste Ocidente liberal, plural, normativo e democrático. É tão-somente isto que está em causa hoje.

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