O desembarque

Os partidos mais representativos do Brasil caíram em desgraça, assim como muitos dos seus representantes, mas daqui em diante o que conta mesmo é a sobrevivência individual e não a das siglas. O cálculo olha para as próximas semanas como uma intensa corte aos apoios à inviabilização do início do processo de impeachment, papel que Lula assumirá com qualidades que Dilma não possui. Aliás, foi para isso que Dilma o recuperou. Do lado dos adeptos da destituição, o caso é simétrico, dado que a corte tem de ser feita a quem está tentado a seguir a gula pelo poder em detrimento da orientação partidária. O PMDB pode ter saltado para o lado certo da história mas isso não significa que todos os peemedebistas o sigam. Se a peça já era triste pelos contornos a que chegou, o espetáculo não promete melhorar. Mas se o polvo toca todos os quadrantes da vida pública brasileira - aparelhamento partidário da administração pública, corrupção entre partidos, a gigante do eldorado petrolífero e as "cinco irmãs" da construção -, como sair deste novelo anti-institucional sem virar o regime do avesso? Há discussões sobre a tipologia de regime que melhor se resguardaria da pandemia destapada ou qual o melhor caminho para inverter a fragmentação partidária e que conduz a enormidades na distribuição de pastas, regalias e torna o executivo permanentemente refém de esquemas. Mas começa a ser difícil imaginar uma autorregeneração política no sistema quando 1/5 dos deputados está sob investigação criminal e os juízes assumiram estatuto de líderes políticos. Caindo ou não Dilma até lá, as eleições municipais de outubro podem vir a testar o caminho escolhido pelos brasileiros: de rutura ou resignação. Quem escolher o primeiro caminho tem também de ser consequente e assumir-se parte da regeneração. Esperemos que não para manter tudo na mesma.

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