O custo da Califórnia

Mesmo que não ganhe na Califórnia, Hillary Clinton pode fechar as contas da corrida se vencer com uma confortável margem em Nova Jérsia. A questão é que perder para Bernie Sanders no estado que mais votos dispõe no colégio eleitoral responsável pela eleição do futuro presidente dos EUA é uma enorme machadada para uma candidata que ninguém, há um ano, diria precisar de tantos cálculos para vencer as primárias democratas.

Com uma campanha errática, muito refém do passado e do movimento avassalador anti-establishment que alimenta as bases de Sanders e de Trump, Clinton escolheu a política externa como grande tema da sua agenda na semana que antecede a votação na Califórnia. E fê-lo de duas maneiras: dirigindo-se essencialmente à poderosa foreign policy community de Washington e atacando as múltiplas tiradas de Donald Trump, explorando à exaustão os perigos que comportam. Foi uma opção legítima, mas extemporânea. Primeiro, porque dá ares de candidata já nomeada e isso alimenta o ódio dos apoiantes de Sanders. Segundo, porque dá muito tempo a Trump para afinar ideias até às presidenciais.

Mantenho o argumento: o grande desafio de Hillary está em arrastar para a sua coligação eleitoral muitos dos que estão hoje com Sanders e que podem cair para a abstenção ou até para Trump. Esses eleitores não gostam da política feita em Washington e sobretudo, em matéria de política externa, querem outro tipo de respostas sobre o modo como é feita e o impacto que tem nas suas vidas. Tal não significa que Clinton tenha de satisfazer todas as crenças desses eleitores - embora a rejeição da Parceria Transpacífica seja mau prenúncio -, mas pelo menos tentar convencê-los dos méritos das suas propostas. Preferiu falar para o aparelho e para os republicanos anti-Trump. Veremos se não lhe vai custar a Califórnia.

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