O custo da Califórnia

Mesmo que não ganhe na Califórnia, Hillary Clinton pode fechar as contas da corrida se vencer com uma confortável margem em Nova Jérsia. A questão é que perder para Bernie Sanders no estado que mais votos dispõe no colégio eleitoral responsável pela eleição do futuro presidente dos EUA é uma enorme machadada para uma candidata que ninguém, há um ano, diria precisar de tantos cálculos para vencer as primárias democratas.

Com uma campanha errática, muito refém do passado e do movimento avassalador anti-establishment que alimenta as bases de Sanders e de Trump, Clinton escolheu a política externa como grande tema da sua agenda na semana que antecede a votação na Califórnia. E fê-lo de duas maneiras: dirigindo-se essencialmente à poderosa foreign policy community de Washington e atacando as múltiplas tiradas de Donald Trump, explorando à exaustão os perigos que comportam. Foi uma opção legítima, mas extemporânea. Primeiro, porque dá ares de candidata já nomeada e isso alimenta o ódio dos apoiantes de Sanders. Segundo, porque dá muito tempo a Trump para afinar ideias até às presidenciais.

Mantenho o argumento: o grande desafio de Hillary está em arrastar para a sua coligação eleitoral muitos dos que estão hoje com Sanders e que podem cair para a abstenção ou até para Trump. Esses eleitores não gostam da política feita em Washington e sobretudo, em matéria de política externa, querem outro tipo de respostas sobre o modo como é feita e o impacto que tem nas suas vidas. Tal não significa que Clinton tenha de satisfazer todas as crenças desses eleitores - embora a rejeição da Parceria Transpacífica seja mau prenúncio -, mas pelo menos tentar convencê-los dos méritos das suas propostas. Preferiu falar para o aparelho e para os republicanos anti-Trump. Veremos se não lhe vai custar a Califórnia.

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Em Abril de 2015, por ocasião do 10.º aniversário da Fundação EDP, o então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmava que Portugal "precisa de investimento externo como de pão para a boca". Não foi a primeira nem a última vez que a frase seria usada, mas naquele contexto tinha uma função evidente: justificar as privatizações realizadas nos anos precedentes, que se traduziram na perda de controlo nacional sobre grandes empresas de sectores estratégicos. A EDP é o caso mais óbvio, mas não é o único. A pergunta que ainda hoje devemos fazer é: o que ganha o país com isso?

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A política na era do caos

As cimeiras do G20 foram criadas para compensar os fracassos das Nações Unidas. Depois da cimeira da semana passada na Argentina, sabemos que o G20 dificilmente produzirá milagres. De facto, as pessoas sentadas à mesa de Buenos Aires são em grande parte responsáveis pelo colapso da ordem internacional. Roger Boyes, do Times de Londres, comparou a cimeira aos filmes de Francis Ford Coppola sobre o clã Corleone: "De um lado da mesa em Buenos Aires, um líder que diz que não cometeu assassínio, do outro, um líder que diz que sim. Há um presidente que acabou de ordenar o ataque a navios de um vizinho, o que equivale a um ato de guerra. Espalhados pela sala, uma dúzia de outros estadistas em conflito sobre fronteiras, dinheiro e influência. E a olhar um para o outro, os dois arquirrivais pretendentes ao lugar de capo dei capi, os presidentes dos Estados Unidos e da China. Apesar das aparências, a maioria dos participantes da cimeira do G20 do fim de semana não enterrou Don Corleone, mas enterrou a ordem liberal."

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nuno camarneiro

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Foi no domingo à tarde na Rua Heliodoro Salgado, que vai do Forno de Tijolo à Penha de França. Um BMW cinzento descia o empedrado a uma velocidade que contrariava a calidez da tarde e os princípios da condução defensiva. De repente, o focinhito de um Smart vermelho atravessa-se no caminho. Travagem brusca, os veículos quedam-se a poucos centímetros. Uma buzinadela e outra de resposta, o rapaz do BMW grita e agita a mão direita à frente dos olhos com os dedos bem abertos, "és ceguinha? És ceguinha?" A senhora do Smart bate repetidamente com o indicador na testa, "tem juízo, pá, tem juízo". Mais palavras, alguma mímica e, de repente, os dois calam-se, sorriem e começam a rir com vontade. Levantam as mãos em sinal de paz, desejam bom Natal e vão às suas vidas.

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O jogo dos homens devastados

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Os computadores, sobretudo os pessoais e caseiros, também nos trouxeram isto: a acessibilidade da "memória", através do armazenamento, cronológico e quantificado. O que me permite - sem esforço - concluir, e partilhar, que este é o meu texto número 500 no Diário de Notícias. Tendo trabalhado a tempo inteiro e colaborado em muitas outras publicações, "mais do que prometia a força humana", nunca tive, em quatro décadas de peças assinadas, uma oportunidade semelhante de festejar algo de semelhante, fosse pela premência do tempo útil sobre o "ato contemplativo" ou pela velocidade inusitada com que ia perdendo os trabalhinhos, nem por isso merecedores de prolongamento do tempo de "vida útil". Permitam-me, pelo ineditismo da situação, esta rápida viagem que, noutro quadro e noutras plataformas, receberia a designação (problemática, reconheça-se) de egosurfing.