O cheque europeu

Angela Merkel foi esta semana dizer a Erdogan que a UE está disposta a acelerar o processo de adesão da Turquia à medida que o país travar o fluxo de refugiados para a Europa. Como? A troco de muitos milhões de euros e do adiamento do relatório da Comissão Europeia sobre o estado das negociações para depois das legislativas turcas. Há, sobre isto, muito por onde pegar. Não consta que Merkel tenha procuração dos Estados membros para falar em nome da UE sobre a relação desta com a Turquia, mas já consta que quem deveria fazer esse papel - Juncker, Mogherini e o comissário do alargamento Johannes Hahn - se ausentou. Há uns meses, Mogherini disse-me numa reunião em Lisboa, a propósito da sua ausência nas negociações sobre a Ucrânia em Minsk, que o modelo "Normandia" já estava em curso e que era importante não quebrar a sua dinâmica. Discordo, mas concedo face ao ritmo dos acontecimentos na Ucrânia. Acontece que o "dossiê Turquia" não pode ser deixado a grupos de contacto ou a um Estado membro, por mais poderoso e decisivo que seja: precisa de uma dinâmica institucional sólida e que escrutine os passos de Ancara no cumprimento dos critérios. A ultrapassagem de Merkel põe isto em cheque, favorece eleitoralmente Erdogan ao adiar uma avaliação pré-eleitoral da Comissão crítica às liberdades e direitos na Turquia, e reduz a relação entre UE e Ancara a um utilitarismo frio sobre a crise dos refugiados, dando ideia que quer pagar a Erdogan para fazer de Kadhafi no travão à migração. Defendo há muito a adesão da Turquia e expus várias vezes aqui os seus méritos, todos direcionados para o redimensionamento geopolítico e económico da UE e para o favorecimento de uma tendência secular e liberal da Turquia. Temos visto como o congelamento da adesão tem mirrado o primeiro e ceifado a esta última, mas não é passando cheques que elas se resolvem.

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