O bloqueio francês

Em vésperas de receber mais de dois milhões de turistas para assistirem ao Europeu de futebol, a paralisação das refinarias e as manifestações sindicais puseram o país de pernas para o ar e a maioria parlamentar em xeque. Dir-me-ão que o calendário até às presidenciais é apertado e que empurrar a "reforma laboral" para depois do verão inviabilizaria os desejados efeitos na economia até à primavera de 2017, um bónus para Marine Le Pen. É um ângulo aceitável. Mas não é só o timing que importa em política, o modo também conta. Neste caso, Valls procura reformar sem espírito reformista (não é caso único), tendo em conta três condicionantes. A primeira é francesa, ou seja, o peso orçamental do Estado é incomportável para a performance económica, sobretudo desde que a globalização colocou a China num dos pratos desequilibradores da economia internacional e a França foi caindo na competitividade global. A força dos sindicatos fez o resto. Assim, o irreformismo francês parece só ter inversão com pulso impositivo e, por natureza, pouco dado às reformas, no sentido gradual, negocial e sensato que elas devem ter. A segunda é britânica. O que Valls está a tentar fazer ao PS francês é percorrer o caminho que Blair deu ao Labour. Acontece que os trabalhistas só deram a volta ao programa porque os conservadores já tinham feito o trabalho duro nas duas décadas anteriores. O problema de Valls é que a direita francesa é tudo menos reformista. A terceira é alemã. Esta reforma laboral francesa foi feita, até de forma mais abrangente, pelo governo SPD/Verdes de Gerhard Schröder. Acontece que elas só duraram e prepararam a Alemanha para os choques da economia internacional com a retaguarda da CDU, arrumando uma grande coligação informal há década e meia. Por estar a meio caminho entre tudo é que a França vive bloqueada. Diz-nos a história que normalmente os seus desbloqueios são penosos.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

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Adriano Moreira

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A Guerra de 1914 surgiu numa data em que a Europa era considerada como a "Europa dominadora", e os povos europeus enfrentaram-se animados por um fervor patriótico que a informação orientava para uma intervenção de curto prazo. Quando o armistício foi assinado, em 11 de novembro de 1918, a guerra tinha provocado mais de dez milhões de mortos, um número pesado de mutilados e doentes, a destruição de meios de combate ruinosos em terra, mar e ar, avaliando-se as despesas militares em 961 mil milhões de francos-ouro, sendo impossível avaliar as destruições causadas nos territórios envolvidos.