O anjo negro

Quem se espanta com os resultados da primeira volta destas regionais francesas, tem andado desatento. O partido de Le Pen foi progressivamente conquistando eleitores desde as regionais de 2010 (2,2 milhões) até ontem (6 milhões), com um pico nas presidenciais de 2012 (6,4 milhões) a demonstrar que a sua figura vale mais do que o seu partido. Também aqui não surpreende: o sistema eleitoral tem sido montado para limitar a tradução direta entre eleitores e mandatos da Frente Nacional e proteger os dois partidos sistémicos. Acontece que a implantação da FN (à esquerda e à direita) apenas tem mascarado e adiado a chegada às portas do poder. Pode até acontecer que haja uma união antifrentista e limitar-se assim o choque, mas as últimas regionais dizem-nos que as perdas de eleitores da FN de uma ronda para a outra não foram assim tão maciças quanto isso. Por outras palavras, o enraizamento popular deste partido antissistémico colocou-o no centro do debate político em todos os níveis do aparelho de Estado e isso é a maior vitória de Marine le Pen. O seu plano sempre foi de longo prazo. É verdade que liderar regiões dá acesso a dinheiro e à administração de algumas dimensões do dia-a-dia francês. No entanto, a FN não tem grande experiência executiva e pode desiludir eleitores até 2017. É aqui que entra Sarkozy, cujo partido pode já beneficiar do voto útil na segunda volta e ganhar a dinâmica necessária até às presidenciais, mostrando-se como o único capaz de travar a chegada de Le Pen ao Eliseu. Todos os cenários são maus, dado que nenhum reforma a França, mas há um pior que todos: ter uma acólita de Putin em Paris (a juntar a outros que gravitam na Europa) não é o anúncio de uma outra UE: é descerrar a sua lápide. E dificilmente as democracias europeias sobrevivem sem a União. A começar por Portugal.

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