O acordo. Qual acordo?

O acordo assinado por membros dos dois parlamentos líbios rivais no passado dia 17 em Marrocos é, em tese, um passo importante para encerrar as hostilidades após a queda de Kadhafi. O compromisso para formar um governo de unidade nacional, realizar eleições em dois anos e recolocar a sede do executivo e do Parlamento nacionais em Tripoli são pontos difíceis de alcançar no plano dos princípios, mas todos eles constam do acordo. A chegada do ISIS a Sirte, a fadiga da guerra civil e a falta de legitimidade do governo islamita de Tripoli, com ligações à Irmandade Muçulmana, fizeram que o momento surgisse. A principal dúvida é se não passará disso mesmo, um intervalo esperançoso sem continuidade no tempo. A primeira questão está no facto de o acordo só ter sido assinado, digamos, pelos deputados moderados dos parlamentos de Tripoli (ilegítimo e islamita) e de Tobruk (reconhecido internacionalmente e de retaguarda militar), cerca de um terço do total. É muito pouco. Além disso, tribos e conselhos locais não aderiam, o que limita ainda mais o seu alcance nacional. Ou seja, em rigor este não é um acordo nem de unidade nem nacional, apenas minimalista num quadro de fragmentação e total insegurança territorial. A segunda questão encaixa aqui. Não estão garantidos mínimos de segurança ao deixar fora do compromisso fações políticas radicais e tribos que facilmente podem convergir numa mesma luta para rapidamente incendiar o acordo. A par disto, não há unidade nas forças armadas para sequer pensar numa investida anti-ISIS ou confiscar o tráfico de armas que alimenta a guerrilha no país. Por fim, o obreiro do acordo, Bernardino León, está hoje à frente da academia diplomática dos Emirados, um dos patrocinadores do governo de Tobruk. A insensatez do gesto pode deitar tudo a perder. Se é que alguma coisa alguma vez poderia ser ganha.

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