O acordo de Paris

Pode ter sido um acordo de salvação nacional. Ou apenas um acordo de salvação partidária, pelo menos por agora. Ou um misto das duas, se a última resultar na primeira. O que não é certamente é um acordo igual ao das três anteriores "grandes coligações" que a Alemanha teve desde 1949. Por um lado, é a "grande coligação" com a mais baixa representação parlamentar de sempre do SPD, o que tenderia a reduzir o seu papel a um parceiro júnior sem grande influência política. Por outro lado, mesmo tendo sido o partido mais votado, esta é "grande coligação" onde a CDU tem também a sua mais reduzida presença no Bundestag, o que faz deste bloco maioritário o mais punido das eleições do passado setembro. Para juntar à festa, este é o parlamento mais fragmentado desde 1949, o que, no atual clima de polarização e esgotamento eleitoral, acaba por ser uma pressão extra à performance desta solução governativa. Dito de outra forma, não há margem para a CDU e o SPD falharem.

O elemento que mais pesou para as partes chegarem a acordo foi o medo de eleições antecipadas. O cálculo partilhado pelas lideranças teve na base o histórico de cumprimento das legislaturas e a aversão que os eleitores têm à instabilidade gerada pela incapacidade dos intervenientes em forjarem compromissos. Para Angela Merkel este dado acabou por ser um trunfo quando as negociações falharam com Os Verdes e o FDP, na altura dramatizando a situação com a inevitabilidade de eleições ou pela ingovernabilidade ditada por um executivo minoritário. Foi esse dramatismo que colocou o ónus em Martin Schulz, obrigado a inverter a sua inicial posição inflexível e a sofrer dentro do SPD com a erosão da cambalhota, o que lhe valeu a saída da liderança num primeiro momento e, pouco depois, a renúncia a uma pasta no executivo.

Com as sondagens no último par de meses a fazerem do SPD um partido com quase tanta expressão como a AfD, foi o medo de ser varrido do mapa que pragmatizou o senhor Schulz. Mesmo assim, o acordo vai ter de passar em referendo interno, o que não sendo dramático pode ditar posições mais livres do que em congresso. A súbita adesão de quase 30 mil novos militantes no último mês (sobretudo da ala mais nova e contrária ao acordo) é um sintoma acrescido de fragmentação interna. Se for aprovado, ao que tudo indica a 4 de março, a senhora Merkel poderá tomar posse no início da segunda quinzena desse mês. A partir daí começa a segunda fase desta coligação forçada: implementar o acordo, gerir as expectativas e obter resultados rápidos até às eleições europeias de maio de 2019. Um ano é uma eternidade em política, mas é muito curto para grandes reformas.

O principal paradoxo até agora está no dado que levantei no início, o facto de o SPD estar nesta quarta "grande coligação" com o pior resultado de sempre e ter conseguido garantir a pasta das Finanças como acrescento à tradicional pasta dos Negócios Estrangeiros dada ao parceiro júnior. Mas não só: o SPD consegue no total o mesmo número de pastas que a CDU, o que transforma uma hecatombe eleitoral numa vitória negocial a toda a linha. Então, porque terá Merkel cedido a este nível, sabendo que abriria nova frente de contestação na CDU e que passaria uma imagem demasiado presa ao poder que pode ajudar à narrativa da AfD? A minha leitura é bastante prosaica: a chanceler é uma gestora de crises, não é uma política de rasgo e muito menos adepta do risco.

Primeiro, governar em minoria implicaria uma dupla frente na oposição (SPD e AfD) numa fase de brexit, Trump e Putin, e ainda com a expectativa sobre Macron, a imprevisibilidade vinda de Itália e as eleições europeias do ano que vem. Tornar a Alemanha um carrossel eleitoral não será a fórmula com que Merkel quer ser recordada. Segundo, convocar novas eleições seria dizer-se incapaz de encontrar soluções quando dispôs de três partidos (Verdes, FDP e SPD) e de um mandato para tal. A punição fatal poderia estar ao virar da esquina. Lendo tudo isto, foi mais uma vez pragmática e pouco sensível às vozes na CDU desalinhadas com as cedências ao SPD. Se Schulz sacrificou (por culpa própria e pela dinâmica política) a liderança do partido, Merkel fez ouvidos moucos à ortodoxia conservadora. Não foi a primeira vez e é provável que não seja a última.

Mas é em Paris que mora o vencedor deste acordo. Emmanuel Macron resolve (até ver) de uma assentada o seu duplo dilema: tem finalmente o governo em Berlim que desejava; e tem, pelo menos à partida, um executivo mais alinhado com o seu cardápio de reformas para a zona euro. E mesmo que só duas ou três avancem, esse pode ser o modo mais sensato para conciliar posições muito distantes que ainda prevalecem entre alemães, holandeses, finlandeses, austríacos e franceses, italianos e portugueses. Além disso, a marca deixada por Schauble nas Finanças é apreciada na Alemanha e uma inversão repentina por parte do novo titular poderia abrir uma frente acrescida de atrito na sociedade alemã. Significa isto que muito mudou para que tudo fique afinal na mesma, ou que nada aparentemente mudou para paulatinamente se alterar a política europeia? Inclino-me mais para esta última, mas tudo dependerá da cadência das políticas, da coesão do governo e da blindagem aos múltiplos fatores externos. E como tudo isso continua muito frágil e incerto, talvez não tenhamos mais de dois anos de avaliação contínua.

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