Não foi só mais um ataque

De repente Hollande é o pivot de uma coligação anti-ISIS mais digna do nome e necessariamente mais eficaz, como provam as deslocações a Washington e a Moscovo na próxima semana. Acusado de ser um líder sem carisma e força política no plano interno, tem demonstrado outro perfil em momentos decisivos da política internacional recente. Não vou avaliar os méritos e deméritos das ações a que me refiro (Líbia, Mali, Síria, ISIS), mas há um ponto que me parece relevante: Hollande tem explorado a política externa, em particular dilemas de segurança relacionados com o interesse francês, para colmatar fraquezas internas. Putin, por exemplo, explora como ninguém este mecanismo desde que chegou ao Kremlin (Chechénia, Geórgia, Ucrânia, Síria). Já em sentido inverso e por pura opção estratégia, Obama deu prioridade à política caseira para regressar à internacional com outra cara, após a descapitalização económica e geoestratégica dos anos de Bush. A principal questão sobre Hollande é esta: vai o presidente francês ser tentado a trazer a dureza da sua ação externa para a condução dos assuntos internos? Dito de outra forma: está a França a girar o seu sistema político em favor de um presidencialismo constitucional efetivo? Se tivermos em conta três fatores de curto prazo, sim. O primeiro resulta da alteração do artigo 16º da Constituição e que dá ao presidente o poder de, sozinho, decretar o "estado de emergência". O segundo decorre deste e passa pela adoção, tendencialmente prolongada, de um Patriot Act à francesa como reforço do "estado de emergência" e encaixando no atual "estado de guerra". O terceiro está na necessidade de, num clima destes, concorrer com o securitarismo ideológico de Sarkozy e Le Pen, entre as regionais do próximo dezembro e as presidenciais de abril de 2017. O ataque a Paris foi muito mais profundo do que parece.

*Investigador universitário

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