Na Torre Trump

Interpretemos sinais conhecidos. Dos quinze membros da equipa de transição liderada pelo vice-presidente Mike Pence fazem parte três filhos e o genro do presidente eleito, com a incumbência de nomear quatro mil membros da administração, incluindo os seus mais altos cargos. Não há memória de uma intromissão familiar tão grande no círculo político de um presidente, já para não falar na presença da filha em reuniões com líderes internacionais sem que tenha quaisquer competência e estatuto para tal, ou de estar previsto que os filhos assegurem a gestão de todos os negócios da organização Trump daqui em diante, muitos deles em países com os quais a administração terá de lidar politicamente de perto.

Agora vejamos as nomeações de topo já conhecidas. Se é verdade que não faltam exemplos de milionários noutras administrações, nunca se chegou a um acumulado de riqueza na ordem dos 15 mil milhões de dólares, qualquer coisa como 50 vezes o primeiro team George W. Bush. Quem esperava uma identificação entre os escolhidos de Trump e os descamisados da globalização tem aqui a prova da seriedade política do novo presidente. As escolhas para o Comércio, o Tesouro, a Energia ou o Departamento de Estado, já para não falar no presidente do Conselho Económico da Casa Branca, são fruto de uma lógica assumida: negociadores implacáveis no mundo da alta finança e das grandes empresas serão forçosamente os melhores para negociar na alta política internacional, raciocínio que adora confundir a gestão de uma empresa com a liderança de um país. Para Trump, qualquer conflito de interesses que persiga Rick Perry ou Rex Tillerson é um mero pormenor administrativo. Na Torre Trump, onde tudo é definido e tuitado, persiste a ideia de que a vitória nas presidenciais e a maioria republicana no Congresso conferem um absolutismo constitucional ao novo presidente. Acontece que esta lógica é precisamente contrária ao espírito da Constituição e assenta na premissa, falsa ainda por cima, de que o GOP está subjugado a Trump. Ora, a composição do Senado - onde todas as nomeações têm de ser auditadas e aprovadas por maioria - é suficientemente experiente e heterogénea para recusar o silêncio perante quem não oferece credibilidade e isenção em altos cargos, se oponha ao livre-comércio ou prefira ditaduras às democracias.

E mesmo que as ultrapassem, audições de desgaste rápido são o tiro de partida para o primeiro ano da nova administração: autoflageladora, sempre no limbo dos conflitos de interesses, desgastada pelo Congresso e pela imprensa e intempestiva no quadro das grandes potências. A escolha pela aproximação à Rússia e a vontade em hostilizar a China fragilizam a ordem internacional, o Ocidente liberal e, em particular, a Europa. Mesmo que não descapitalize a NATO, desmembra a confiança entre aliados. Ainda vamos ver Bruxelas mais próxima de Pequim do que de Washington. A pax americana pode ter chegado ao fim.

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