Na rota ibérica

A negligência com que Portugal tem tratado a relação com os EUA e os avanços tecnológicos no mercado global da defesa, tornaram Espanha no principal aliado ibérico de Washington. Mesmo que sucessivas sondagens apontem os espanhóis (e os turcos) como os aliados da NATO onde o antiamericanismo é assumido em maior grau, e não sendo Madrid membro fundador da Aliança Atlântica nem tendo histórico de proximidade a Washington, a verdade é que Lisboa perdeu terreno nos últimos anos. Alguns dos nossos decisores confiaram excessivamente em ligações pessoais; a dimensão de segurança e a base das Lajes esgotaram erradamente os termos da relação bilateral; cultivaram-se pouco ou nada interesses estratégicos comuns de médio prazo (diáspora, energia, logística, acordos comerciais, ciência ou tecnologia); e houve uma deficiente dinamização dos canais diplomáticos e empresariais capaz de desviar a atenção americana de Espanha. A verdade é que a dinâmica espanhola não resulta de um especial envolvimento nas missões da NATO capaz de envergonhar Portugal, nem de investimentos na defesa que se aproximem do exigido pelos EUA. Ou mesmo que tenha sido prejudicada pela oscilação dos compromissos da última década - Aznar selou o vínculo com Washington para conseguir lugar no G8, Zapatero tirou num ápice as tropas do Iraque. O que Madrid soube foi potenciar a sua presença na América Latina e em pontos nevrálgicos comuns aos EUA (Venezuela, Colômbia, México, Cuba) para se projectar, além de beneficiar da ascensão da comunidade hispânica na política interna americana. A juntar a isto, a relevância das bases de Rota e de Morón na estratégia antimíssil da NATO e no caos do Mediterrâneo alargado, traçou o regresso de um presidente americano a Madrid, pela primeira vez em 15 anos. Hoje, mais do que nunca, Portugal precisa de reinventar os termos da relação com os EUA.

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