Muda Dilma, não o sistema

A deserção da frente partidária que apoiava a administração Dilma até há uns dias aproximou a aprovação do impeachment. Esta é uma das características da política brasileira mais expostas pelo atual momento: o carácter descartável que os partidos têm uns dos outros, com desembarque antes da molha, numa total ausência de dignidade colegial. Dilma tem razão quando diz que é impossível governar e estabilizar o Brasil com 25 partidos na Câmara dos Deputados. O circo de ontem deu-lhe razão. Mas já nem refiro só a berraria entre parlamentares - como na comissão que aprovou o pedido de destituição e em que metade dos membros estão na alçada da Lava-Jato -, falo de mínimos de previsibilidade política impossíveis de garantir nestes monumentais puzzles governamentais. É difícil que tanta troca de favores em função de tanta pasta por ocupar ou de tantos apoios parlamentares por garantir não acabe num vício de forma do sistema, em último caso jogado no poço da corrupção e da trafulhice. Mesmo que Dilma tenha razão no diagnóstico, a verdade é que também nada fez para mudar as regras. Outras características que saltam da deserção partidária recente e da aparição súbita de um punhado de salvadores, como o vice-presidente Michel Temer, é a hipocrisia que carregam e o espírito messiânico que tentam fazer passar. Temer, tal como o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o presidente do Senado, Renan Calheiros, estão também citados na Lava-Jato, o que faz deste trio dirigente do PMDB (e a linha sucessória pós-impeachment) personagens sem condições para negociar a regeneração do sistema. Já aqui disse que Dilma tem sido um desastre como presidente e que a relação com Portugal piorou com a sua chegada. Mas não é por morrer uma andorinha que acaba a primavera. Pode até começar um inverno rigoroso.

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