Maymerkel

Reação comum à vitória do brexit passa por projetar o reforço da hegemonia alemã na União Europeia (UE). É preciso olhar para o momento europeu com lentes um pouco mais calibradas. Desde logo porque o brexit não é um momento, é um processo. Processo que recebeu um impulso popular em junho, mas cujo andamento político permanece uma incógnita. Só depois de formalizado o pedido de saída com o artigo 50.º do Tratado de Lisboa e iniciadas negociações entre Londres e a Comissão Europeia é que perceberemos os contornos da relação futura entre o Reino Unido e a UE. Esse processo pode demorar bem mais do que dois anos (estarão em negociação mais de 80 mil páginas de legislação comunitária), e até estar concluído, juridicamente, nada muda nos direitos e deveres das partes.

Se pensarmos que Theresa May participará pela primeira vez num Conselho Europeu a 20 de outubro e na pressão que sofrerá para definir o momento em que acionará o artigo 50, talvez entre o final de 2016 e o início de 2017 possa ver esse ato pioneiro formalizado. Até lá, May e a sua equipa reunir-se-ão com outros líderes europeus, especialmente Merkel e Hollande, para encontrarem a fórmula necessária de gestão de danos pós-referendo. Porque digo necessária? Porque até Londres já percebeu o passo para o abismo que significa a rutura total, dado que teria de negociar, um a um, os 52 acordos de livre-comércio que a UE tem com o resto do mundo, ou mesmo a sua adesão individual à OMC, termos que requerem aprovação por consenso dos seus 163 membros.

O "modelo norueguês" (acesso ao mercado único, respeito pela livre circulação e contribuição para o orçamento da UE) dificilmente será comprado pelos brexiters conservadores e mesmo um "modelo norueguês-menos" (com um travão à livre circulação, por exemplo) teria de ser ratificado pelos outros 27 parlamentos nacionais e ainda por aqueles que, não pertencendo à UE, estão no mercado único, como Noruega, Islândia e Liechtenstein). A alternativa seria um "acordo de livre-comércio-mais" entre a UE e o Reino Unido, mais próximo do negociado com o Canadá e a Turquia, evitando que a relação comercial (sobretudo nos serviços) caia nas regras da OMC, onerosas para os dois lados. Um modelo desse tipo permitiria a Londres escapar às regras da livre circulação comunitária e reduzir as perdas da saída do mercado único. A questão é que uma negociação destas pode ter um início, mas dificilmente alguém sabe quando terminaria. Este cenário não é necessariamente mau, dado que neste arco temporal imprevisível os britânicos poderiam testemunhar os custos da deslocalização de empresas ou a desvalorização da praça financeira londrina e acabarem a pressionar o poder político a recuar na intenção de saída. É no conjunto destes cenários que a posição da Alemanha será preponderante.

É ponto assente que Angela Merkel continuará obrigada a gerir os interesses internos e externos alemães. Por um lado, a continentalização da UE pós-brexit seria, em tese, benéfica para o momento unipolar alemão, mas na prática o que faz é sobrecarregar uma hegemonia já por si relutante e tendencialmente errática, dadas as múltiplas frentes em que Berlim tem sido posta à prova. Por outro, a pressão do falhanço alemão é um risco para a UE, um fardo que Merkel não quer carregar e cujos custos económicos seriam desastrosos para a Alemanha. A começar por uma negociação com Londres que resultasse num acordo de saída abrupto e insensato, capaz de onerar as exportações alemãs e prejudicar a sua indústria, sobretudo automóvel, dado ser o mercado britânico o primeiro na hierarquia de exportação alemã nesse ramo. Além disso, Berlim seria chamada a substituir grande parte da fatia perdida com a retirada do contributo orçamental comunitário feito por Londres. Ou seja, sendo 2017 um ano de legislativas alemãs, Merkel vai ser obrigada a jogar cartadas decisivas para o seu futuro político, da economia alemã e da sobrevivência da UE. Convenhamos, não é pouca coisa.

É por isso que tenho procurado argumentar nesta coluna que a hegemonia alemã na UE é relutante. Certamente que errática, agressiva e decisiva. Mas dificilmente assumida em todos os seus termos. Porquê? Precisamente porque ainda lhe faltam instrumentos à plenitude dessa hegemonia (militares, securitários, diplomáticos, soft power) e porque os custos de um unilateralismo errado são superiores aos de um multilateralismo com passo acertado, mesmo que lento. A relação entre May e Merkel (esperemos que alargada a Clinton e sem Le Pen) irá definir o futuro de ambas mas acima de tudo da Europa. Cabeça fria, por favor.

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