Mayday

Não há motivos para celebrar e só mesmo um doido varrido como Nigel Farage foi capaz de brindar à oficialização do brexit. Nenhuma das partes sai a ganhar e a impreparação de ambas para uma negociação desta dimensão faz prever o pior. A UE fica continentalizada num eixo franco-alemão desequilibrado e numa zona euro que passará a ser o círculo principal da integração política, comercial e de segurança. Quem tiver condições para acompanhar o ritmo com que Berlim (e, talvez, Paris) ditar o rumo das políticas comunitárias estará no núcleo duro e manterá uma réstia de influência. Mas aqueles que considerarem ser demasiado caro e internamente insustentável percorrer essa cadência ficarão para trás, à margem das decisões principais, acentuando a sua periferia política, que pode, também, coincidir com a geográfica. Ou seja, a oficialização desta UE pode agilizar procedimentos e soluções anticrises concêntricas (finanças, banca, defesa, imigração, energia, emprego), mas não garante qualquer horizonte de coesão a 27. Podemos continuar a chamar-lhe União Europeia mas estamos a falar de outro objeto político daí em diante.

O paradoxo da histórica relação tempestuosa entre o Reino Unido e a UE dá-se precisamente pela via da coesão. Londres, ao contrário de uma leitura imediatista, acabou sempre por ser um pilar da coesão europeia, seja com a acomodação institucional da Alemanha reunificada, seja pela defesa dos alargamentos a Leste, seja pela força do seu vínculo a Washington, estrutural à confiança entre países do antigo Pacto de Varsóvia e da NATO, seja por representar 12% do orçamento comunitário, ser o primeiro país da UE como destino de investimento direto estrangeiro, o maior polo de credibilidade europeia na defesa, uma potência nuclear e um pilar do livre comércio e do liberalismo político, valores intrínsecos à construção europeia. Perder o Reino Unido significa desmembrar a UE de tudo isto de uma forma orgânica e faseada, dolorosa e politicamente desgastante, ainda por cima sem nenhuma alternativa comparável.

Em Bruxelas, Paris, Berlim ou Lisboa, talvez estivéssemos a discutir o brexit noutros termos se um qualquer candidato à adesão pudesse colmatar o valor do Reino Unido em capacidade económica, estatuto geopolítico, praça financeira, natureza ideológica, população ou posição geográfica. Mas essa escapatória não existe. A única forma de manter um certo equilíbrio à excessiva continentalização da política europeia seria através de uma destas duas vias: ou ter os EUA mais presentes nos vários círculos da integração - irrealista dado o caminho da última década -, ou acelerar a adesão da Turquia, tão ilusória como o ponto anterior, com a agravante de estar já em processo de divórcio litigioso. Por outras palavras, quem hoje celebra a saída do Reino Unido nas várias latitudes europeias por esta ou por aquela razão, acabará por concluir que a médio prazo ficará mais pobre, menos livre e menos influente sobre as decisões que moldarão o seu futuro.

O mesmo se passa em sentido inverso. Aqueles, como Nigel Farage ou Boris Johnson, que fazem da atividade política um circo irresponsável e um parque infantil, escolheram amedrontar a audiência pela via identitária, cavalgando a onda dos tempos modernos, prometendo um final feliz sobre regalias comerciais, económicas e laborais. Só que desde junho do ano passado que sabem ser impossível cumprir a promessa. Além disso, venceram no Norte de Inglaterra e em Gales, duas das regiões mais dependentes das exportações para a UE e dos fundos comunitários, sem apresentarem nenhuma alternativa realista a essa dependência. Falar em Commonwealth é ridículo, pelo que representa no total do bolo comercial britânico, e os países emergentes comportam riscos políticos muito superiores aos que hoje os brexiters acusam a UE de criar. A sua campanha foi, por isto, um logro monumental.

Mas já não estamos aí , o que não quer dizer que o embuste não tenha um preço. As análises mais tremendistas falam de um empobrecimento britânico a 15 anos, na ordem dos 300 mil milhões de euros, mas mesmo que o valor esteja inflacionado há outros custos a curto prazo com impacto económico potencial. O principal é a desagregação do Reino Unido, o dilema da dupla união que Theresa May tem de gerir. Além de ser obrigada a tamanho esforço sem ter uma legitimidade eleitoral reforçada - é primeira-ministra por sucessão interna -, não tem uma oposição forte onde se agarrar para ampliar a sua estratégia - o Labour é um fantasma político e o Lib-Dem não tem força para influenciar a dinâmica política a este nível - e está numa posição de equilíbrio difícil entre uma abordagem ponderada e flexível e uma intransigente e punitiva. Ao contrário do que alguns têm dito, May não sai reforçada deste processo, antes numa posição frágil e sob uma pressão brutal para trazer conquistas a Westminster quase diárias. O que podemos ter é um duplo problema: o desgaste provocado pelos dilemas da dupla união levarem à demissão de May, as alternativas serem piores e o brexit findar os dois anos sem acordo nem extensão do prazo à vista. Pior do que um Reino Unido fora da UE e de uma UE sem o Reino Unido, só um vazio contratual entre ambos que cave a incerteza, o medo e a desconfiança e dê espaço redobrado aos Farages desta vida. Isto ainda agora começou.

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