Margem sul

Ao longo de 2015, a Grécia provou ser impossível a um só país revoltar-se contra o tratado orçamental, alterar os equilíbrios no Eurogrupo e trazer para casa flexibilidade e compreensão dos credores. No início desse ano suscitei aqui um exercício prospetivo dadas as eleições que se seguiriam na Europa, dizendo qualquer coisa como isto: as coisas podem ser um pouco diferentes se em Portugal e Espanha o PS e o PSOE vencerem. Isso não aconteceu, o que não torna ilegítima a forma como construíram (Espanha a caminho de o fazer) soluções de apoio maioritário nos Parlamentos. Nem ilegítima nem ilegal, quanto muito inconsistente, mais exposta ao atrito na coligação e às pressões dos credores e da rua. A juntar à dinâmica peninsular, França e Itália têm governos de centro-esquerda (embora com outras matizes), fazendo da orla sul da zona euro um potencial cordão político contestatário. Vale a pena recordar que mal Juncker tomou posse na Comissão, Paris disse logo que precisava de mais tempo para cumprir o défice, atirando o calendário para 2017. Roma, pela voz de Renzi, aproveitou há dias uma colisão com Berlim sobre os refugiados para lembrar a promessa de Juncker em conceder flexibilidade orçamental a países a braços com a retoma económica. Claro que da Comissão e do Eurogrupo não saiu qualquer ameaça, o que mostra mais uma vez que os países não são todos iguais e que a credibilidade europeia não pede meças só aos devedores. Se Lisboa, Madrid e Atenas quiserem disputar os termos do tratado orçamental abrindo um período de revisão têm de convergir politicamente (não é certo) e sonhar que Paris e Roma confrontem abertamente Berlim (não é provável). A política europeia feita pela margem sul, para ter eficácia, precisa muito mais de subtileza do que de espírito revolucionário. Que o diga Varoufakis.

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