Maduros e podres

A caótica situação da Venezuela era uma questão de tempo. Desde que, após a morte de Hugo Chávez, a transição de poder foi feita sem grande entusiasmo pelo sucessor e assente num acordo tácito entre Nicolás Maduro e os setores militares afetos à "revolução bolivariana", que a tentação do abismo passou a iminente. Se juntarmos o total desnorte político do presidente venezuelano, a queda do preço do barril de petróleo, a implosão da economia, alterações nos equilíbrios ideológicos latino-americanos e a ascensão eleitoral de uma oposição minimamente concertada, chegamos sem surpresa ao eixo dominante por que se movem as democracias meramente formais: de um populismo galopante ao autoritarismo resiliente.

Nas últimas semanas assistimos ao último exemplo da desorientação total de alguém que em tempos se entretinha a falar com um periquito na esperança de ouvir palavras encorajadoras de Chávez. Num primeiro momento, o Supremo Tribunal de Justiça usurpou os poderes do Parlamento (com maioria da oposição), obedecendo diligentemente aos ditames de Maduro na sua incessante busca de cavar ainda mais o buraco em que o país está. Foi não só mais uma violação do princípio básico de uma democracia sólida e material, o da separação de poderes, como um novo momento de total controlo do poder judicial pela presidência. A contestação saiu à rua, algumas condenações internacionais foram ouvidas, e alguma imprensa estrangeira (sobretudo a espanhola) não foi meiga na condenação e exposição dos males do regime. Dias depois, em espiral de loucura, Maduro deu ordem ao Supremo para reverter a decisão, mostrando pela enésima vez como tem o poder judicial no bolso para qualquer arbitrariedade, incendiando ainda mais a revolta social em curso. O talento político nunca foi uma característica de Maduro.

Ao percorrer os cerca de trinta artigos que aqui escrevi sobre a Venezuela nos últimos seis anos, não foi difícil constatar que assomos autoritários, concentração de poder, agressividade narrativa, beligerância diplomática, fragilidades do modelo económico e promoção constante de uma "luta de classes" eram características bem presentes na presidência Chávez. Até nisto Maduro não tem nenhum talento inovador para apresentar. O que Chávez tinha era um misto de legitimidade revolucionária, solidariedade regional e um barril a preço alto. Uma sorte dos tempos envolvida num carisma militarista, tão excitante para os modelos populistas latino-americanos que o rodeavam como para democracias supostamente maduras que se embeiçaram pelo feitiço do peso venezuelano, como é o caso de vários governos, partidos e líderes políticos portugueses. Aliás, salvo uma ou outra exceção envergonhada, todos continuam a pautar a sua indignação por um ensurdecedor silêncio.

A crise humana venezuelana não parece tirar o sono a nenhum responsável político português que se enamorou, por razões várias, pelo regime venezuelano. Durante um tempo, argumentavam com o realismo das relações diplomáticas e o laço umbilical que resultava do meio milhão de lusodescendentes a viver lá, um embrulho que autorizava qualquer promiscuidade partidária, ou até de Estado, e promovia sem limites a entrada de leão de grandes empresas portuguesas no mercado venezuelano. A euforia, no entanto, foi dando lugar ao recato. Caracas passou a ser a cidade mais violenta do mundo e a outrora sempre estimada comunidade lusodescendente, uma das principais vítimas do constante fogo cruzado da capital, ficou para segundo plano, sem que os governos em Lisboa tenham tomado audíveis posições públicas de condenação ou exigência de proteção à Venezuela. No mesmo sentido, a onda de motivação imprimida pelo poder político às empresas portuguesas, sem qualquer antecipação do risco político que iriam encontrar, deu lugar a uma gestão conjunta de danos com que ainda hoje lidam.

Quer isto dizer que Portugal está engessado pelo silêncio e pela cumplicidade, sem forma de refazer a sua imagem? Acredito que não. Primeiro, podia começar por fazer o debate interno que se exige sobre as linhas vermelhas que separam as relações bilaterais com regimes autoritários e o deslumbramento com súbitos eldorados salvíficos. O preço a pagar tem sido ficarmos enredados no caos ou na prepotência alheias, sem apresentarmos mínimos de dignidade nas escapatórias ou um discurso de Estado à altura do inevitável afastamento ou da gestão de danos. Em segundo lugar, porque em Espanha a Venezuela não é um tema tabu e os interesses ibéricos permanecem, estudar a formação de uma task force entre Lisboa e Madrid que pudesse exercer uma qualquer forma de intermediação entre as partes em colisão na Venezuela, sem nunca perder de vista os bons ofícios no quadro multilateral da América Latina. É do interesse de todos, a começar nos venezuelanos e a terminar em Washington, que não se caia numa guerra civil descontrolada e interminável.

Em terceiro lugar, porque a Venezuela atravessa uma crise humana grave - 82% de taxa de pobreza, 75% da população sem alimentação regular, 80% dos medicamentos indisponíveis, sistema de saúde colapsado, potencial elevado de epidemias, vaga de imigração forçada nas fronteiras com a Colômbia e o Brasil -, já era altura de envolver de outra forma a ONU e as suas agências nas soluções de curto prazo. Essa atuação poderia enquadrar um papel mais ativo do secretário-geral, António Guterres, motivado por uma nova agenda para a Venezuela ou por uma direta influência de Lisboa. Se o sistema multilateral latino-americano é débil para resolver crises destas, são precisas alternativas de geometria variável que travem aquele descalabro. Infelizmente, o pior pode ainda estar por vir.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub