Made in ISIS

Não é terrorista quem quer, é terrorista quem sabe. Os ataques em Paris mostraram bem o ponto em que está o terrorismo made in ISIS. A coordenação não é uma novidade nestas ações macabras, mas sobe um degrau quando junta de rajada três metodologias complementares: bombistas suicidas num megaevento desportivo, tiroteio a sangue-frio num restaurante, massacre numa sala de espetáculos. Esta trilogia mostra o profissionalismo desta jihad coesa, compacta e sem margem para erros. Como não existe rigor sem preparação, sem tempo e sem dinheiro, tal só é possível pelo nível de liberdade com que a radicalização é feita, o treino ministrado e a doutrinação aplicada. Liberdade diretamente relacionada com os três círculos onde o ISIS hoje opera.

O primeiro é o íman do jihadismo global em que se tornou a Síria. Um coeso exército de 30/40 mil homens, comandados por veteranos de outras jihads (Afeganistão, Chechénia, Iraque ou Bósnia) e antigos militares do regime de Saddam Hussein, contribui decisivamente para a sofisticação do treino, metodologia de ataque e respeito pela hierarquia. A forma como o ISIS substitui rapidamente o Estado em cada cidade conquistada, faz dele um regulador da vida económica local sem margem para convulsões sociais. Subsidiar preços de bens elementares, manter fábricas, hospitais e escolas a funcionar, exigem método administrativo e muito dinheiro. Sob o manto do terror e da ordem, ideologia, manipulação religiosa e implantação territorial têm feito do ISIS muito mais do que uma rede terrorista.

O segundo está na fidelidade dos europeus jihadistas, um contingente entre 7 e 10 mil homens, esmagadoramente cidadãos dos países mais ricos do Centro e do Norte da Europa, não necessariamente com ascendente familiar islâmico mas disponíveis a abraçar o culto do califado, a glória do apocalipse, a raiva contra os países de origem aos quais não se sentem originários. O jihadista europeu é quem tem possibilitado ao ISIS acrescentar à base territorial na Síria e no Iraque uma dimensão concorrente à Al-Qaeda, com a qual luta pela patente do terror. Por outras palavras, ao ISIS já não basta o conflito sanguinário apontado ao xiismo sírio e iraquiano (herança do fundador al Zarqawi), passou a ser imprescindível atuar no campeonato da Al-Qaeda, isto é, minando o modo de vida ocidental com recurso à "prata da casa".

O terceiro é o "submundo" das redes sociais, onde a radicalização galopante está a ser feita, aproveitando as virtudes desse espaço livre para expor as suas vulnerabilidades. Aqui reside o dado novo e mal acompanhado pelos governos ocidentais, incapazes até agora de desmontar a propaganda e a lavagem cerebral, de integrar nessa contenda líderes muçulmanos moderados e negociar, com outra eficácia, a filtragem e a monitorização do incitamento ao ódio e à jihad com os gigantes de Silicon Valley.

Estes três círculos obrigam a respostas rápidas de qualquer governo associado à catástrofe síria e aos jihadistas ocidentais. Desde logo, defender a nossa liberdade com mais meios ao dispor da segurança: a primeira não sobrevive sem a segunda. As democracias ocidentais têm de saber justificar aos eleitores que não é possível continuar a descapitalizar a defesa e a administração interna como têm feito. Além disso, é preciso travar de vez os canais de financiamento do ISIS e que lhe deram, em 2014, 12 milhões de dólares mensais vindos do mercado negro petrolífero, do tráfico de antiguidades e da recolha furtiva de impostos. Por fim, muitos estarão tentados a militarizar a resposta contra o ninho do ISIS na Síria. Mas uma coisa é ser duro, outra é ser voluntarista. Uma invasão terrestre maciça é o que o ISIS mais quer. Por isso é preciso prudência e conciliar agendas entre os players principais (Rússia, Irão, Arábia Saudita e Turquia). Bem sei que não é fácil digerir isto em Washington, Paris ou Londres, mas os tempos estão mais para pragmatismos do que para excessos ideológicos. Para isto já cá está o ISIS.

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