Macron entre Putin e Trump

Emmanuel Macron toma hoje posse como o mais novo presidente da história francesa, depois de triunfar com um programa descaradamente pró-europeu, liberal e defensor da sociedade e da economia abertas. Além de ter superado as sondagens, conduziu ao Eliseu, pela primeira vez na V República, uma agenda fora dos dois grandes partidos com um rosto desprovido de estatuto senatorial. Quem jurasse há um ano que esta receita teria algum sucesso seria considerado um louco, mas Macron provou que há espaço para uma renovação ao centro num sistema partidário cristalizado, numa administração pública avessa a reformas e num ambiente hiperpolarizado. O seu sucesso pode levar a uma adaptação faseada e sensata da União Europeia à competitividade global e encarrilar uma arquitetura sustentada na zona euro, ambas fundamentais para reindustrializar a França, modernizar a economia e gerar emprego. O seu fracasso é o caminho para uma marcha triunfal de camisas negras em próximos ciclos eleitorais e é por isto que o peso da responsabilidade pode acabar por ser a maior das debilidades de Macron.

Estive na Praça do Louvre aquando do anúncio da vitória de Macron e testemunhei a enchente de juventude que ali se reuniu. É uma geração que não conhece fronteiras, que estudou e trabalhou fora, que vai e regressa, que reage prontamente a um modelo de fechamento, discurso do ódio, negacionismo histórico, rutura voluntarista sem rede, manipulação da verdade, irmandade com tiranetes, amadorismo programático envolto num profissionalismo ideológico. Essa geração esteve com Macron convictamente, não o apoiou como Cunhal fez um dia a Soares. E mesmo com uma multidão de eleitores que por razões de regime aderiram à grotesca tese do mal menor, a verdade é que Macron venceu em todos os escalões etários, todos os patamares de rendimentos, em ambos os sexos, em todos os níveis de educação, nas zonas rurais e nas urbanas. Dos 102 departamentos em que a França administrativamente está dividida (97 internos e cinco no exterior), Macron só perdeu em dois (Aisne e Pas-de-Calais). França esteve menos dividida do que se quer fazer crer.

Nesta segunda volta, Macron acabou por conceder a Le Pen um referendo a duas das bandeiras mais desprezíveis à Frente Nacional: a globalização e a União Europeia. Macron venceu ambas, legitimando politicamente o seu posicionamento no reformulado quadro partidário francês e a sua agenda num improvável roteiro de sucesso eleitoral. O que é que ele precisa para seguir en marche? De um enorme resultado nas legislativas de junho. Não é vencer, é de posicionar o seu movimento num partido com larga representação parlamentar em que já nada se faz sem ele, quando muito pode fazer--se alguma coisa contra ele. Mas aí, a fresca e reforçada posição presidencial ditará o seu lugar no sistema. Neste sentido, a segunda volta das presidenciais foi só mais uma etapa para a governabilidade de França (e da UE), não a derradeira. Nesse sentido, também a taxa de popularidade de Hollande, mais perto de uma bateria de telemóvel a desligar-se do que de outra coisa, permite a Macron moldar a presidência ao seu estilo e dinamismo. Hollande, o Casanova da lambreta, foi o último prego no caixão de um Eliseu refém do palacianismo bafiento, dos dourados providenciais e da pose majestática de uma linhagem vetusta.

Macron deu ainda uma lição a Hillary Clinton, distinguindo os eleitores de Le Pen dela própria. Não caiu no terrível erro cometido pela democrata quando chamou aos eleitores de Trump "deploráveis", uma arrogância que acabou por acomodar a perceção generalizada que sobre ela pendia e que a cristalizou, sem ponto de retorno, num pedestal elitista a abater pelas massas e um motivo de deserção entre muitos que tinham estado por duas vezes com Obama. O enquadramento com a campanha americana deu-se ainda pela forma como Macron lidou com as mentiras plantadas na imprensa e disseminadas online, nomeadamente nas 48 horas finais da campanha em que deram à costa uns milhares de e-mails e documentos privados sobre si, postos em marcha pelo triângulo diabólico da pirataria informática eleitoral, Wikileaks-Rússia-extrema-direita americana. Ao contrário da experiente máquina da senhora Clinton, completamente à deriva quando sofreu o ciberataque fatal, Macron lidou à altura com a situação: convocou a imprensa responsável a assumir uma quota-parte dessa luta, contra-atacou de imediato para não deixar que uma mentira se tornasse verdade (como a suposta conta nas Bahamas), obrigando Le Pen a recuar na suspeição que lançara, mobilizou os eleitores em defesa da soberania da República e da transparência das regras democráticas. O resto foi feito pela equipa digital de Macron liderada por Mounir Mahjoubi: em alerta máximo há semanas, criaram uma imensidão de contas de e-mail e documentação falsas para armadilhar e despistar os previsíveis ataques dos hackers. Com apenas 18 elementos, o team Macron ganhou tempo para manter a agenda no rumo que desejado, sem perder o norte. No Putin, no party.

Entretanto, esta última semana em Washington mostrou que o que se está a passar na Casa Branca faz de Nixon um menino de coro. A empresa do cada vez mais influente genro de Trump, Jared Kushner, esteve na China a captar milionários com o chamariz facilitador de estar próximo do presidente. Sergei Lavrov e o embaixador russo em DC reuniram-se com Trump na Sala Oval, mas apenas a imprensa russa teve direito a estar presente. O diretor do FBI, a quem Trump muito deve, levou o beijo da serpente e foi demitido em plena investigação ao conluio entre o Kremlin e a máquina de campanha do republicano. Mais dias esta semana tivesse, mais escandaloso isto seria. Também por isto é fundamental que Macron tenha sucesso.

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