Lisboa entre Trump e Varsóvia

Como era de esperar, a dinâmica multilateral do G20 isolou os EUA e a ronda com Putin expôs o amadorismo de Trump. Em ambas, Washington sai mal na fotografia. Para Trump, tudo é bilateral, tem um preço e é passível de livre-arbítrio. A substituição pela filha Ivanka numa das reuniões com líderes mundiais está mais próxima do nepotismo de uma ditadura centro-asiática do que de uma democracia respeitável. Talvez seja altura de falar em regime Trump em vez de administração Trump.

A experiência de Putin/Lavrov deu dez a zero à bazófia de Trump/Tillerson que, diligentemente, tratou de acreditar na não ingerência do Kremlin na eleição de 2016, o que equivale a desprezar a investigação em curso nas instituições americanas. Não há memória de um presidente que tão entusiasticamente beneficie o infrator, celebre o feito e siga sorrindo. O mesmo se passou em Varsóvia, encontro mais importante do que o G20 para a Europa e para os interesses de Portugal. Há mais a acontecer para lá da diplomacia do aperto de mão.

A política, entre outras possíveis definições, é também a arte de dizer a palavra certa no momento oportuno. Se na cimeira da NATO Trump não quis reafirmar o compromisso com o artigo 5.º do Tratado de Washington, em Varsóvia corrigiu o erro depois do alarmismo a Leste. Tudo sanado? Nada disso. Logo tratou de acrescentar dois novos níveis ao divisionismo transatlântico: a diabolização da "burocracia" (leia-se UE) como inimiga das nações e a vanglorização do soberanismo agressivo, palavras que soaram a Chopin para o nacionalismo reinante na Polónia. Ou seja, do ponto de vista ideológico, o governo polaco está hoje mais próximo da administração americana do que de Berlim ou de Paris, e é na concretização dessa "relação especial" que quer tirar o máximo partido económico, energético e estratégico. Se a Alemanha foi o grande aliado europeu de Obama, é a Polónia que dá mais garantias a Trump nesse papel. A convergência ideológica é alarmante. A política polaca está sob cerco nacionalista acelerado, comandado a partir da Secretaria-Geral do PiS, liderada por Jaroslaw Kaczynski e que, como me dizia um dos poucos magistrados livres há umas semanas em Varsóvia, é um grande respeitador do princípio constitucional da separação de poderes: de manhã liga ao presidente da República, à tarde à primeira-ministra e à noite ao líder do Parlamento, e a todos diz o que têm de fazer. Como pude comprovar nas várias reuniões que tive, o jogo de espelhos não é feito com a Hungria de Órban - desvalorizado - mas com as duas grandes potências europeias, França e sobretudo Alemanha. Em Varsóvia, o tamanho e a geografia contam e os EUA acrescentam conteúdo ao sonho da paridade de poder.

É por isto que a visita de Trump caiu do céu. Se ideologicamente legitima a governação, politicamente amplia a ambição estratégia. Qual? Contornar o sistema de gasodutos entre a Rússia e a Alemanha e ser um pilar de norte a sul no abastecimento energético, infraestruturas e influência política. A boa notícia é que a concorrência entre fontes e rotas de abastecimento é, em tese, boa para a UE e tende a diminuir a dependência russa. Além disso, a Polónia não está sozinha nem sequer foi a obreira do projeto. É à presidente da Croácia, Kolinda Grabar Kitarovic, que cabe esse mérito. Lançada em Dubrovnik no ano passado e com 12 países da UE a compor 30% do seu território, a Iniciativa dos Três Mares (Báltico, Negro e Adriático) desenha uma rede de abastecimento energético, comunicações e infraestruturas que, objetivamente, procura retirar à Rússia o domínio em vários países pela via da energia e diminuir a influência política da Alemanha no quadro das decisões comunitárias. Se o projeto serve à Croácia para se redimensionar para lá dos Balcãs Ocidentais - expressão que muitos políticos evitam referir, como testemunhei nesta semana em Zagreb -, encaixa a Polónia no roteiro de ligação preferencial a Washington, renacionalização da política europeia e maior equilíbrio com o colosso alemão.

A má notícia é que a administração Trump privilegia eixos de proximidade ideológica. Isto seria uma evidência positiva se essa tipologia assentasse num quadro de valores liberais, pluralistas e de respeito pelo Estado de direito. Ora, tal pode implicar a discriminação de aliados que ofereçam melhores condições às pretensões americanas na energia. Se "independência energética" foi mantra para Obama, a "dominação energética" é o objetivo de Trump, nem que para isso tenha de dividir para reinar. O que está a acontecer na Europa, e vai acentuar-se até ao final da década, é a concorrência duríssima na geopolítica da energia, como efeitos no dispositivo nacionalista, no registo do estrito interesse nacional, isolando vizinhos e pondo o mercado único energético em causa.

Porque é que isto devia estar a ser seguido com atenção em Lisboa? Porque não devemos ser coniventes com a renacionalização da política europeia, que só estilhaça a coesão que ainda resta. Porque o debate da energia é fundamental para nos posicionarmos de outra forma em Bruxelas e em toda a bacia atlântica. E porque Portugal e Espanha têm 5 dos 12 terminais de GNL de toda a UE e poderiam maximizar o seu poder regional como recetores de gás para a Europa, dando outras garantias em Bruxelas de que o fariam em nome da coesão e de um mercado único sólido e competitivo. Nunca como hoje a política europeia e a política interna dos Estados membros estiveram tão irmanadas. Quem não tiver isso em conta está a prestar um mau serviço ao seu país.

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