Lama na ventoinha

O caso dos e-mails só forçosamente encaixa na "surpresa de outubro", dado que há mais de três anos atormenta Hillary Clinton. A sua negligência é conhecida e escalpelizada à exaustão pela imprensa, WikiLeaks, pundits de serviço, procuradoria e por uma comissão do Congresso. Para ser uma "surpresa de outubro" teria de se aproximar da hecatombe de Wall Street que atarantou por completo John McCain em 2008; ou da emergência na Costa Leste depois da devastação do furacão Sandy (que aqui vivi na pele) e que distinguiu a coragem política entre Obama e Romney; ou do anúncio de Kissinger, em 1972, sobre a proximidade de paz no Vietname, depois de quatro anos infrutíferos de Nixon, e que acabaria reeleito com 20% de diferença sobre George McGovern. Em todo o caso, desde que as "surpresas de outubro" foram cunhadas que o seu impacto pouco alterou a vantagem já detida por um dos candidatos, o mesmo é dizer que os e-mails podem não provocar uma reviravolta a favor de Trump, até porque a apreciação de confiança (ou falta dela) em Hillary não se altera com este caso. Em bom rigor, a dinâmica de aproximação de Trump já tinha arrancado antes da carta enviada aos congressistas pelo diretor do FBI, o que significa que há um caráter enraizadamente popular e seguro em redor da natureza política de Trump. E isto é ainda mais pernicioso para os EUA. Hoje, a existir surpresa é o comportamento do diretor do FBI, que além de tocar no limite do abuso de poder e da violação da lei Hatch imiscuindo-se na campanha, justificou a reabertura da investigação com insinuações vagas e insensatas. Depois das acusações à Rússia por ciberataques - que o mesmo diretor do FBI se recusa a oficializar, mesmo partilhando o diagnóstico -, a América vive uma insubordinação no topo da investigação criminal. O pior é que depois de dia 9 a lama continuará na ventoinha.

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