Jo Cox

Tem sido uma campanha profundamente negativa e amedrontadora, com exaltação de medos permanentes sobre invasores estrangeiros ou absoluta miséria em caso de rescisão com a UE. Alguns líderes europeus, do alto da sua indigência política, têm acicatado o pânico com tiradas despropositadas, dando argumentos extra a quem despreza recados de fora. Chutar para um referendo existencial a disputa pela liderança partidária foi um erro tremendo de David Cameron, alimentado por aqueles que lhe exigiam uma fasquia de risco para revelarem todo o seu argumentário de mentiras, ilusões e revanchismo. O resultado está aí: uma deputada civilizada, moderada e cumpridora do seu dever eleitoral caída à lei da bala por um grito de Britain First. Não sei se esta tragédia pode inverter o sentido de voto de muitos indecisos e dar a vitória à manutenção do Reino Unido na UE, mas se tal acontecer Jo Cox não terá morrido em vão e algumas da suas bandeiras terão sobrevivido à mentira. Uma destas faz dos imigrantes chaga social e económica, fazendo crer que tudo seria diferente fora da UE. É falso. Mais de metade dos imigrantes não chegam da UE e os que daqui vêm contribuem com os seus impostos para o estado social britânico em dose maior do que os benefícios que usufruem. Aliás, nem se pode falar de um problema de desemprego alto ou recessão, pontos que muito contribuíram para a maioria absoluta conservadora. E o país nem vinculado a Schengen está. A existir falhanço na integração de imigrantes ele é de Londres, não de Bruxelas. Jo Cox era uma internacionalista, recusava transfigurar o Reino Unido numa Little Britain, empurrada por uma saída que mais não é do que um salto para o nacionalismo, o empobrecimento fora das generosas regras do mercado único, a periferia estratégica e a pequenez ideológica. A morte de Jo Cox mostra que estes vírus já cá moram mesmo sem brexit. A Europa está mesmo doente.

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Anselmo Borges

Premium A mística do quotidiano.1

As férias são um justo tempo para repousar do trabalho, mas elas deveriam ser também, como diz o próprio étimo, a experiência de que o ser humano é um ser festivo e, assim, na serenidade, serem o tempo de reencontrar tempo para a família e para os amigos, tempo para ouvir o silêncio, tempo para a poesia e para a música, que nos remetem para a transcendência. Isso: contemplar e criar beleza - é a beleza que salva o mundo, dizia Dostoiévski -, admirar uma simples folha de erva com o orvalho da manhã, ver o Sol nascer a oriente e pôr-se a ocidente, exaltar-se com o alfobre das estrelas - "Duas coisas enchem o ânimo de admiração e veneração sempre novas e crescentes, quanto mais frequentemente e com maior persistência delas se ocupa a reflexão: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim", escreveu Immanuel Kant -, dialogar com o Infinito. Em tempo de férias, é bom parar e ir ao essencial, para se poder evitar o pior: o desnorteamento, a desorientação, o vazio existencial. O essencial, de um modo ou outro, é em Deus que se encontra, mas numa experiência pessoal. Como no amor.