Investimento com retorno

A atenção europeia tem estado na Síria, mas era bom que voltasse para a Líbia, não só porque NATO (por ação) e UE (por omissão) tiveram responsabilidades no caos pós-Kadhafi, mas porque de um ponto de vista pragmático é mais difícil entrar no xadrez da Síria e fazer a diferença. Há demasiada gente embrulhada no Médio Oriente para um país europeu poder ser decisivo no decurso da guerra civil ou num desejável processo político posterior. Não estou a sugerir desistir da Síria, longe disso, estou apenas a olhar com realismo para as capacidades e condições dos europeus. Na Líbia, o quadro é um pouco diferente. Como referi, há uma responsabilidade ocidental no arranjo institucional e económico, tal como no travão à anarquia das armas que tem alimentado a guerrilha e o crime organizado. A rota que faz da Líbia o maior entreposto mediterrânico de refugiados para a Europa do sul compõe o leque. Então, o que pode fazer a UE na Líbia? Pode começar por dar força e amplitude mediática à iniciativa do enviado da ONU, o espanhol Bernardino León, de sentar à mesa os dois governos líbios em colisão. A proposta para um executivo de unidade é um bom ponto de partida para uma inclusão política e para o controlo das armas que inundaram o país nos últimos anos. Como responderam os governos de Tobruk e Tripoli? Desprezaram os nomes para as futuras instituições e não se dispuseram a ceder para validar a iniciativa. Isso não faz do plano um mau exemplar, apenas reflete a natureza dos atores. Para os desbloquear é importante que europeus (e americanos) exerçam pressão direta (ou via Egito e Turquia) e usem todos os instrumentos de coerção. Recolocar a Líbia no mapa político e económico é uma obrigação europeia tão decisiva para o Mediterrâneo como para a credibilidade da UE. Até agora falhou. Há investimentos com retorno garantido.

*Investigador universitário

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