Indigentes e cobardes

O que vai dentro da cabeça de Boris Johnson é o mesmo que abana a sua cabeleira loira: vento. A forma oportunista e irresponsável com que se bateu pela rutura entre conservadores e enfiou o Reino Unido na sua maior crise constitucional desde a perda do Império, fugindo depois como se nada tivesse acontecido, diz tudo sobre a estirpe de políticos que encarna: egocêntricos, indigentes, desavergonhados e cobardes. A maior lição que o partido que já foi de Churchill e Thatcher poderia dar a um país politicamente anarquizado seria afastar com estrondo a linhagem perigosa de Johnson, derrotando Michael Gove. É provável que isto não aconteça, porque o fervor anti-UE na bancada antecipa disputa acesa com Theresa May. Não que esta seja euroentusiasta - isso não existe no partido -, mas porque tem outras condições para negociar com Bruxelas os termos que definirão o estatuto do Reino Unido na UE. Desde logo, sendo ministra do Interior, conhece bem as consequências de uma saída total e abrupta para a segurança britânica, fruto do afastamento do processo de decisão europeu em áreas vitais como o terrorismo, a cibersegurança e a partilha de dados. Depois, porque tendo sido uma remainer discreta, tem mais espaço para dialogar com os deputados que apoiaram o brexit, moldando o seu radicalismo com o auxílio de uma realidade levada no tempo: isolamento estratégico, deslocação de investimentos e empresas, descapitalização da banca, cortes na despesa pública, intransigência de Bruxelas, xenofobia nas ruas, aumento da impopularidade do governo. Por fim, se suceder a Cameron como Brown a Blair, sem eleições, May pode acenar aos seus pares com o cumprimento da legislatura em função dos méritos de uma negociação sensata com Bruxelas (modelo norueguês) e do triste momento que o Labour oferece. O maior derrotado do referendo foi mesmo o Reino Unido.

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