Holanda para lá de Wilders

Acompanhei as eleições holandesas em Amesterdão, cidade onde os Verdes foram o partido mais votado com uma agenda pró-europeia, tolerante com a imigração e afirmativamente cosmopolita. O seu eleitor é muito jovem, urbano, com educação superior e de classe média--alta. Se os Verdes foram o partido que mais cresceu entre os catorze que integram o novo Parlamento holandês e se a identidade foi o fator central e decisivo na hora de votar, então podemos concluir que muitos eleitores holandeses quiseram afirmar uma identidade multicultural como elemento definidor do seu país, recusando o fatalismo do nacionalismo xenófobo como o único refúgio dos tempos modernos.

Mais: liberais, democratas-cristãos, conservadores-liberais e sociais-democratas - qualquer coisa como 70% do novo Parlamento -, mesmo com as suas nuances e comportamentos eleitorais próprios, convergiram numa agenda cosmopolita como marca identitária para a Holanda e, por via disso, para a Europa. Ou seja, a centralidade da identidade no debate político ocidental não está reduzida nem tão-pouco enclausurada numa só categoria cultural que parece fazer do homem branco e supostamente puro a essência da salvação humana ocidental e, em particular, europeia. Tenho ideia de já ter ouvido estas teses há umas décadas malditas e é bom que fiquem mesmo nessas tristes calendas da história. Portanto, a primeira grande lição a tirar destas eleições é esta: o cosmopolitismo está a responder ao nacionalismo com força e afirmação quando é chamado a fazê-lo em momentos determinantes.

Anda também por aí um queixume sobre os perigos da fragmentação partidária holandesa e a suposta impossibilidade de formar um governo coerente e sustentável. Em primeiro lugar, parece-me importante dizer que oferta partidária numa democracia nunca é demais e que isso ajuda a explicar porque é que 82% dos holandeses foram votar: mais plataformas de representatividade anti-Wilders acomodaram aqueles 40% de eleitores que se diziam indecisos na véspera da eleição, os muitos que ficaram órfãos com a prestação dos trabalhistas no governo Rutte, outros que votaram pela primeira vez, e ainda os que puderam expressar a sua identidade na múltipla oferta que esse mercado partidário proporcionou, entre eles a chegada pela primeira vez ao Parlamento de um partido pró-turco.

Em segundo lugar, vale a pena recordar a ancestral tradição holandesa em negociação pós-eleitoral para formar maiorias no Parlamento de apoio a coligações governativas, ou mesmo a experiência que o país tem em protelar o termo dessas conversas por vários meses, ou em ver governos cair a meio do mandato e responder à altura dos acontecimentos, e até em ter primeiros-ministros que não venceram as legislativas. Há, portanto, um externo paternalismo sobre o que está a acontecer, o qual erradamente centrou toda a análise numa eleição em redor de um homem só e não num processo posterior aos resultados, a fase mais importante de todo este quadro político. Há Holanda para lá de Wilders. Há Europa para lá do nacionalismo.

Um dos ângulos que merece atenção deu-se em paralelo à eleição, embora com impacto na reta final da campanha. A grande notícia das eleições holandesas não é nem a derrota de Wilders, nem a fragmentação partidária, nem a punição aos trabalhistas, nem o puzzle das negociações. A grande notícia destas eleições foi o anúncio formal e sonoro do fim da aproximação (ou até da relação) entre a Turquia e a União Europeia. Claro que é verdade que só um milagre colocaria novamente Ancara no carril da integração. Claro que é verdade que a putinização da Turquia está em marcha há anos suficientes para nos mostrar que a integração já nem uma miragem era. E certamente que num clima de identidades exacerbadas como que se vive, falar da adesão da Turquia tornou-se um não-assunto, até porque, por culpas várias, o entusiasmo com a integração caiu em desgraça entre os turcos. A chama nacionalista, cartada usada por Erdogan para atrair essa falange interna a um mês do referendo constitucional, abafou qualquer ponte futura com as capitais europeias. É pena. Ninguém sai bem da fotografia: UE e Turquia perderam uma oportunidade histórica de capitalizarem o que de bom têm, preferindo ao longo do anos aprofundar as suas perversidades endógenas até ao divórcio final. Erdogan decretou-o esta semana com estrondo, mostrando à Europa a sua irmandade com Moscovo.

Quer isto dizer que os interesses entre a Turquia e a Rússia vão diluir-se num percurso comum e harmonioso? Claro que não. Se há duas grandes potências com choques de testosterona permanentes, são elas. Mas os condimentos do autoritarismo presidencial, de violações das liberdades e direitos humanos, as perseguições sistémicas, o conluio entre Estado, partido do regime e círculo restrito do presidente, o nacionalismo autocrático, o revanchismo pós-imperial e a agressividade com a vizinhança aproximam estes dois maus espíritos da política contemporânea. Além disso, como ficou provado na Holanda, olham para a sua diáspora como um instrumento de afirmação do regime, um prolongamento do nacionalismo, um braço manipulável da sua extensão territorial, do seu imaginário imperial. A Rússia faz o mesmo pela Europa fora, a Turquia percebeu como esses milhões da diáspora são importantes na consolidação do projeto de Erdogan.

Não é que isto seja verdadeiramente uma inovação ou que o putinismo enquanto escola não tivesse já sido identificado como íman das potências revisionistas. O que é relevante sublinhar é termos assistido na Holanda à oficialização da perda sine die da Turquia por parte da UE. Lamento profundamente este desfecho. Tenho pena, sobretudo, pelos turcos.

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