Hillary agradece

Os republicanos raramente saem do casulo religioso e agora o caso não é para menos: o aparelho partidário está a rezar a todos os santos por um milagre chamado "qualquer coisa menos Trump". No terreno, o insucesso da ladainha tem sido evidente e a Florida foi o exemplo mais recente. Os dadores do partido gastaram 15 milhões de dólares na campanha Never Trump e deram-se mal: Rubio saiu pela porta dos fundos e Trump levou para casa os 99 delegados. O único balão de oxigénio veio do Ohio, onde o cinzentão Kasich fez o que lhe competia enquanto governador do estado e arrebatou os 66 delegados. No Illinois, Missouri e na Carolina do Norte Trump levou a melhor, embora nestes dois últimos com uma margem muito curta sobre Ted Cruz. Aliás, nesta fase, está quase tudo nas mãos deste homem, que precisa de projetar-se como o único capaz de travar Trump e recolher apoio e meios do establishment. Casos em que candidatos passam de odiados a amados pelo aparelho não faltam e se os indicadores apontarem para uma brokered convention - isto é, se nenhum candidato atingir a maioria exigida de delegados à entrada da convenção - ou para uma maior capacidade em derrotar Hillary em novembro, então Cruz pode gerar uma dinâmica interessante. É verdade que entre Trump e Cruz venha o diabo e escolha, mas não é o momento para fazer psicanálise ao GOP: estão 1100 delegados em jogo e, com o campo de batalha montado entre pró e anti-Trump, há alguma margem para sobressaltos. É certo que não é muita e para acontecer em tempo útil seriam precisos uma frente unida, convergência de fundos e muitas alterações no discurso de Cruz. Para já, tudo hipóteses. Na prática, Trump apoderou-se do partido e não o contrário, o que significa que se o GOP quiser sair do colete-de-forças vai ter de continuar a autoflagelação ou esfarrapar-se de vez na convenção. Hillary agradece.

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