Geopolítica nas empresas

Qualquer político ou empresário deve saber que há uma certeza na vida depois de ultrapassada uma crise financeira com impacto na sua atividade: é que outra crise acontecerá mais dia menos dia. Não há nenhuma atração pelo abismo nem qualquer tremendismo neste raciocínio, apenas uma noção das vicissitudes destes vários processos de ajustamento em curso na economia internacional, no comércio, na tecnologia, na energia, nos hábitos de consumo e na ordem internacional. Estamos, a diferentes ritmos e perceções, a passar por um período destes e a informação certa pode fazer a diferença entre o sucesso e o insucesso dos governos e das empresas.

Felizmente, e digo isto convencido dos seus méritos mas também da necessidade de correções, a esmagadora maioria dos países opera sob uma torrente avassaladora vinda do exterior onde se cruzam fluxos em ligação constante e que cosem, por um lado, uma globalização a vários ritmos, e, por outro, uma teia de riscos que expõe, para o bem e para o mal, todos a quem toca. Dito de outra forma, não há hoje nenhuma relevante decisão política ou empresarial que se possa dar ao luxo de evitar o contacto com fatores de risco internacionais, sejam eles geopolíticos ou eleitorais, fruto de comportamentos políticos minimamente previsíveis ou de decisões aparentemente domésticas.

Portugal é um bom exemplo de um país altamente exposto aos riscos políticos internacionais. Sem recuar muito no tempo, na fase posterior à adesão às Comunidades, fomos colocando o nosso alinhamento externo em concertação quase íntima com as principais economias europeias (Espanha, França, Alemanha e Reino Unido). Os pressupostos da integração política comunitária passavam e continuam a passar por aqui. E bem: Portugal não tem alternativa viável à sua plena integração na União Europeia, mas pode e deve potenciar as suas relações extraeuropeias. O impacto da crise de 2008-2009 e do programa de resgate assinado em 2011 levaram políticos e empresários a olhar para a aceleração da internacionalização das empresas e para as exportações como um modelo que simultaneamente reduzia os riscos vindos das economias europeias e diversificava o leque de mercados e as oportunidades de negócio. Mas, como também vimos, expôs as empresas e o país a novos e múltiplos riscos, tantos deles mal avaliados e com elevados prejuízos.

Por outras palavras, se há um ângulo positivo a retirar desta última grande crise financeira é que ela obrigou Portugal a assumir um papel menos envergonhado na globalização. Claro que à nossa escala e poder, mas de facto é hoje possível dizer que há mais empresários com menos medo de arriscar em mercados não convencionais, que existe maior confiança na qualidade e competitividade dos nossos produtos e recursos humanos, e que nos valorizamos um pouco mais no contacto negocial com qualquer contraparte estrangeira. Talvez seja uma nova geração mais globalista a tomar as rédeas da economia ou a necessidade a fazer o engenho, mas é neste país desempoeirado que acredito e onde quero viver.

De qualquer modo, e por uma questão de transparência, digo que muita da minha atividade profissional passa hoje por aconselhar empresas e investidores, nacionais ou estrangeiros, a incluírem na sua grelha de decisão riscos políticos e geopolíticos com impacto na sua atividade, há ainda muito por fazer. Desde logo, massificar junto do empresariado essa necessidade. Salvo honrosas exceções - António Costa Silva, da Partex, é uma delas -, são raros aqueles que percebem a importância de mapear tendências num determinado país ou região; monitorizar uma ou mais realidades políticas e o impacto legislativo num certo setor da economia; antecipar cenários de curto prazo pós-eleitorais; acompanhar com detalhe uma negociação política no quadro do comércio, da regulação, da energia ou da livre circulação de pessoas e bens; e até transformar perceções de risco político (brexit e Catalunha, por exemplo) em oportunidades de negócio através de ângulos até então desvalorizados ou simplesmente desconhecidos.

Esta abordagem multidisciplinar e multidimensional é tão ou mais importante quando falamos de mercados emergentes, como a China ou a Índia, onde a imensidão de fatores internos e vizinhos escapam à nossa análise, embora tenham uma influência tremenda na sua capacidade em investir por esse mundo fora ou de atrair a atenção estrangeira mais carente de liquidez. Por exemplo, a dimensão das desigualdades e o impacto na estabilidade social; os limites ambientais e o efeito na industrialização; os planos logísticos e energéticos em curso; as reações aos mecanismos de controlo empresarial por parte do aparelho de estado; os níveis de credibilidade dos grandes investidores e as reais intenções em determinado mercado; ou o posicionamento em fóruns multilaterais ou bilaterais, sejam financeiros, securitários, energéticos ou comerciais.

Falar de mapeamento de riscos e oportunidades, monitorização de tendências, informação sistematizada e interpretação credível não significa identificar apenas mercados mais ou menos conhecidos. Falo, também, de perfis de investidores e dos seus capitais com interesse em Portugal e que passam pelo compliance como se dos pingos da chuva se tratasse, apenas porque estamos em situação de aperto financeiro. O caso é mais grave se estivermos a falar de setores estratégicos, o que exige outra atenção e uma diversificação cuidada na origem dessas fontes de interesse. Um país com uma economia aberta como Portugal, disposto a arriscar mais, precisa de antecipar melhor e corrigir mal possa, para falhar cada vez menos. Sem medos.

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