Gary Lineker revisitado

O fim das crises europeias tem sido manifestamente exagerado. Pela primeira vez, a Comissão abriu um processo contra um Estado membro (Polónia) por violação dos princípios básicos da UE, podendo, se aprovado em Conselho por maioria qualificada, suspender o direito de voto desse país e limitar-lhe o acesso ao próximo quadro orçamental pós-2020. Lembro que a Polónia é o país da UE que mais fundos recebeu desde a adesão em 2004. Para termos uma ideia do impacto na economia real, 95% do investimento estrangeiro na Polónia vem do bolo orçamental comunitário. Ou seja, fechamos 2017 com um despique-limite entre as instituições e o principal pilar do grande alargamento, o maior passo geopolítico dado pela UE nos últimos 30 anos.

A forma ligeira como a maior parte da imprensa europeia tem tratado este tema revela o nível de alienação em que vivemos, sempre mais focados no acessório do que no essencial: a gestão comunitária do sensível dossiê polaco definirá a autoridade dos tratados e o rumo liberal que enquadrará o seu projeto político. Além disto, França e Alemanha (mesmo sem novo governo formado) estiveram na retaguarda da Comissão, precisamente no momento em que Theresa May foi a Varsóvia manifestar o seu silêncio sobre a reforma do sistema judicial em curso, numa clara violação da separação de poderes na Polónia. Significa isto que, além do brexit, há outros alinhamentos profundos a dividir os principais países da zona euro do Reino Unido, o que cava um fosso ideológico profundo entre quem está comprometido com o centro nevrálgico da moeda única e quem quer continuar de fora, tentando liderar um arco regional com outra cumplicidade histórica e em deriva nacionalista.

Isto não significa que a zona euro esteja imune a réplicas de terramotos políticos e financeiros recentes. Desde logo porque os três meses que passaram desde as eleições alemãs já colocaram a reforma da zona euro no centro do compromisso entre Schulz e Merkel, ou melhor, entre o SPD e a CDU. Tanto um como o outro querem ir ao encontro das propostas de Macron, mas várias forças antagónicas dentro dos seus partidos não estão a facilitar a decisão. Sem isso, não existirá nenhum calendário exequível que prepare a zona euro para os choques que 2018 pode trazer, desde uma rede capaz de acomodar o risco bancário italiano à consolidação de uma atmosfera institucional mais robusta que afaste de vez os fantasmas pós-2008. É preciso virar a página europeia do negativismo em redor das frágeis soluções comunitárias defronte das grandes crises simultâneas (euro, dívidas, desemprego, populismo, refugiados, brexit, iliberalismo, ciberataques, corrupção), caso contrário veremos cada vez mais partidos radicais a crescer. A situação de clivagem entre Madrid e Barcelona e um possível contágio de ingovernabilidade expuseram entretanto Espanha, a quarta maior economia da zona euro, a riscos altos, mas o caso italiano é, neste contexto, o mais alarmante.

O Movimento 5 Estrelas (M5S) tem provado ser mais do que um epifenómeno, desde que, em 2013, entrou na política italiana como um meteorito, conquistando 25% dos votos. No quadro da constante rotatividade hermética de governos e primeiros-ministros sem recurso a eleições, o discurso antissistémico contra este tipo de procedimentos tem sido um dos fósforos que vão alimentando essa chama, em cima do marasmo económico e dos problemas da banca. Se juntarmos a fórmula do M5S (à frente nas sondagens) ao radicalismo da Liga Norte, que, com Matteo Salvini, está em processo de transição de partido regionalista para nacional (passará a Lega dei Popoli), podemos ter uma frente anti-euro, anti-UE e pró-Putin com força suficiente para alterar os equilíbrios habituais em Itália. Com legislativas a 4 de março, a terceira maior economia da zona euro irá mostrar não só de que massa é feita, mas também que instrumentos tem agora a moeda única para controlar novos riscos com epicentro em Roma. Darmos atenção a Itália apenas na véspera das legislativas é sinal de que não aprendemos nada nestes anos de crise europeia.

A olhar para tudo isto está o senhor Putin, agora candidato independente às presidenciais de 18 de março. Com Alexei Navalny excluído e as marionetas do regime a fazer número no boletim, Putin será aclamado na sua estratégia de agressividade externa e que tão habilmente tem escamoteado uma imensidão de problemas em casa. A apoteose será feita no Mundial de futebol, três meses depois, um mecanismo tornado hábito entre BRICS e alguns autocratas contemporâneos para exporem obra de regime e integrá-lo no grande teatro da política internacional. Vale a pena olhar para a sequência dos grandes eventos desportivos na última década (JO Pequim 2008, FIFA África do Sul 2010, FIFA Brasil 2014, JO Rio 2016, FIFA Rússia 2018) e o que virá a seguir (FIFA Qatar 2022, o mais caro da história), para aferir as derrapagens orçamentais, a engorda da clientela política e o impacto nas estratégias narcisistas dos seus líderes. Disse um dia o grande Gary Lineker que "o futebol são 22 homens atrás de uma bola durante 90 minutos e no final ganha a Alemanha". No caso da política europeia que estamos a acompanhar, podemos dizer que são quase todos contra todos e que no final pode ganhar a Rússia. O anúncio do fim das crises europeias, com os balões de oxigénio eleitorais de 2017, pode ter sido manifestamente exagerado.

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Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

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