Fogo e fúria

Foi mais uma decisão à Trump. Primeiro, põe aliados em pânico com o anúncio de tarifas às importações, para depois lhes conceder a honra de figurarem no quadro das exceções. O efeito imediato é político: na Europa, no Canadá e no México os decisores políticos e económicos continuam a não ter uma grelha de análise sobre os movimentos mais ou menos bruscos que Trump dá à economia internacional, seja com anúncios aduaneiros ou com tiradas de choque securitário. A última foi a nomeação de John Bolton.

Certo é que ambas têm impacto geopolítico e o principal resulta do tronco comum feito por Trump desde o anúncio de candidatura às primárias republicanas: eu é que decido o modo, o timing e os objetivos da minha política. Foi isto que o tornou disruptivo no sistema americano - mesmo fazendo há anos parte da sua elite - ao ponto de agrupar, com sucesso, vários eleitorados aparentemente contraditórios. É também isto que está a fazer na presidência: mesmo que não seja consequente com os anúncios legislativos, a verdade é que coloca todos na expectativa de saber o que vai fazer a seguir, dando-lhe toda a atenção e colinho de que tanto gosta. Resultado? Cria um clima de vantagem negocial do lado da administração. Não é à toa que as exceções ao Canadá e ao México são anunciadas agora.

Sabemos que as importações de alumínio e aço canadianas e mexicanas valem quase metade do menu global americano. O que resulta das exceções são as condições ainda mais favoráveis às suas indústrias em comparação com outras que operavam nos EUA podendo não só ganhar mais quota de mercado como impulsionar o emprego interno. Foi basicamente isto que aconteceu quando a administração W. Bush, em 2002, decidiu aumentar as taxas à importação do aço para 30%, pondo o Canadá e o México de parte. O resultado foi um aumento na quota de mercado americano e a salvação das suas indústrias, nomeadamente a mexicana. A medida, retirada menos de um ano depois por ineficácia total, consolidou os dois países no mapa de importações americanas, a qual dura até hoje.

Como o timing em política é quase tudo, Trump acaba por poder condicionar duas frentes a curto prazo. Por um lado, parte para a próxima ronda negocial do NAFTA (abril) com a vantagem do seu lado. Por outro, intromete-se na campanha presidencial mexicana (eleições a 1 de julho), cujo favorito é um nacionalista de esquerda com tiques trumpistas, Andrés Obrador. Não só não é do interesse de Trump ter alguém com perfil concorrente nas imediações como esse nacionalismo diminui a influência americana em negociações bilaterais ou regionais. Claro que o facto de estas duas frentes poderem estar no ângulo de atuação da Casa Branca não significa que sejam executadas com capacidade, tendo em conta o caos administrativo que reina na administração, a anarquia da comunicação e o desprezo pela rede diplomática.

Mas, se este é o quadro no continente americano, quando olhamos para a UE assistimos à mesma metodologia: espalha-se o pânico, reinicia-se uma nova frente de confrontação, instalam-se as dúvidas, e no final concede-se a exceção. Politicamente, pode estar no ângulo da administração criar o mesmo sentido de vantagem negocial em vários domínios europeus, mas o alcance é muito mais lato do que com o Canadá e o México: é dividir os europeus. Não se pode dizer que seja uma singularidade estratégica, várias administrações no passado criaram as dissonâncias necessárias para manterem intacta a sua hegemonia. A diferença é que o clima europeu está num momento crítico, que em condições naturais motivaria Washington a posicionar-se como agregador comum numa manifestação de hegemonia benigna. Vivemos numa trincheira entre nacionalistas anti-UE e cosmopolitas pró-UE, entre tentações autocráticas desagregadoras da coesão e motivações titubeantes sobre roteiros reformistas. Cresceu a desconfiança mútua na ressaca da grande crise financeira e da vaga de refugiados, e tem-se visto pouca América na Europa e demasiado putinismo. É entre os dois e com a China a chegar em carreiras de charters que a UE tenta ganhar fôlego, recuperar e seguir em frente. O problema? O oxigénio é lento, o ânimo pesaroso e o rumo indefinido.

Xi Jinping é quem melhor tem lido este momento geopolítico. A Nova Rota da Seda é genericamente olhada como uma oportunidade (embora seja altura de discutirmos o seu lado B). Grécia, Hungria e Portugal são algumas das prioridades chinesas na Europa, via infraestruturas em localizações-chave (Pireu, ferrovia Belgrado-Budapeste, etc.) ou através do controlo de setores estratégicos. Não é à toa que a gigante China State Construction abriu delegação em Lisboa em janeiro, uma demonstração de interesse que devia motivar o governo português a garantir condições recíprocas na China e parcerias estratégicas com empresas portuguesas em projetos prioritários.

Em Pequim sabe-se da desconfiança na Europa sobre Trump, do alarmismo sobre Putin e da descrença sobre a UE. É nestas divisões e na falta de liquidez que Xi Jinping atua pacientemente. Eternizar-se no cargo dá ainda mais confiança e não ter iniciado uma "guerra" comercial com Trump torna-o menos agressivo entre os vizinhos do Pacífico e nas capitais europeias. As tarifas americanas apontadas à China podem ter na base algum diagnóstico correto, nomeadamente as condições de reciprocidade e o respeito pela propriedade intelectual não garantidas. Mas a metodologia adotada e os impactos económicos globais só atiram europeus e asiáticos para os braços da China. Xi agradece.

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