Filhos e netos de Bin Laden

Cinco anos depois da morte de Bin Laden, a Al-Qaeda já não é a maior e mais poderosa rede terrorista internacional, a sua liderança está a anos-luz do carisma do fundador e os ecos na imprensa são cada vez menos. Quer isto dizer que nos livrámos da peste? Não. Nem devemos baixar a guarda. O que se pode dizer é que conhecemos melhor a sua geografia preferencial - Magreb e Península Arábica -, a dificuldade em regenerar as chefias (foram eliminados quase setenta figuras de topo na última década) e os canais de financiamento. Sabemos ainda da aposta nos últimos anos numa maior implantação no subcontinente indiano, aproveitando a experiência paquistanesa para se intrometer nas tensões de Índia, Bangladesh e Birmânia. Mas também há hoje a noção de que tudo pode não passar de um simples intervalo reorganizativo, dado que a perda de relevância para o ISIS na escala do terror, no mercado da jihad e na mediatização do horror, obrigam-na a endurecer a estratégia para não ficar permanentemente para trás. Aliás, o grau de sofisticação operacional e de demência ideológica do ISIS têm um duplo efeito na Al-Qaeda: por um lado, garantem fidelidade e idolatria ao ISIS de grupos semiautónomos espalhados por África, Médio Oriente, Ásia Central e Sudeste Asiático, para não falar na teia que habita nas capitais ocidentais; por outro, restringe as fontes de financiamento, dado que o projeto em curso do ISIS (ocupação territorial no Médio Oriente e no Norte de África acrescido de ataques pontuais no Ocidente) é mais atrativo, movimenta mais recursos e tem um retorno maior. Se a morte de Bin Laden fechou o ciclo traumático iniciado naquela manhã de 11 de setembro, a verdade é que abriu um outro temporalmente imprevisível. Os filhos da Al-Qaeda (ISIS) são piores, mais ambiciosos e muito mais poderosos do que os seus pais. Por este caminho, nem quero imaginar os netos.

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