Filhos de Putin

Fez agora um ano que a UE aprovou um sistema de quotas para a recolocação de 150 mil refugiados (em 500 milhões de habitantes) que fugiam das guerras civis mediterrânicas. Alguns Estados membros, como a Hungria, a Eslováquia e a Polónia, nunca aceitaram que uma decisão comunitária prevalecesse sobre a sua esfera nacional e foram bloqueando, das formas mais ignóbeis, a concretização dessa medida no terreno. O primeiro paradoxo que salta à vista é este: países que devem a sua democracia e recente prosperidade à integração na União Europeia depois de décadas de jugo totalitário são os que mais desdenham em momentos decisivos como o atual a existência de um centro político coordenador da imigração, trânsito, acolhimento e asilo no espaço comunitário.

Na verdade, estes Estados têm uma visão mais próxima do menu a la carte com que Londres sempre pautou a sua relação com a UE do que de um compromisso sincero com os direitos e deveres de um país com os dois pés dentro. Não é por acaso que é nos países do grande alargamento a leste que se verificam as maiores taxas de abstenção em eleições para o Parlamento Europeu: no fundo, a integração europeia não passou de uma escapatória generosa à pobreza soviética, um porto de abrigo para as elites - muitas delas vindas dos antigos partidos comunistas - e um garante da continuidade da homogeneidade cristã nas suas sociedades. De cada vez que numa qualquer capital europeia um líder brada aos céus que a Europa é fruto exclusivo da herança judaico-cristã e que deve ser preservada a todo o custo - apagando com isso séculos de presença muçulmana -, o senhor Orbán rejubila na cadeira com a garantia de que a pureza magiar não será nunca mesclada. Quando a trupe de cínicos, entre eles Orbán, desfilou nas ruas de Paris depois do ataque ao Charlie Hebdo, o primeiro-ministro húngaro tratou logo de encerrar a questão à boa maneira da mais fina xenofobia política em curso: "Não queremos cá minorias, mas manter a Hungria como Hungria." Infelizmente, não é o único a pensar desta forma.

Já de maneira diferente pensava o jovem Orbán quando a Fundação Soros lhe atribuiu uma bolsa para estudar em Oxford em 1989. Não consta que, minoritário, o húngaro tenha na altura sofrido represálias dos ingleses, massacrado na cara com gás pimenta ou que à volta dos seus aposentos se tenha erguido um muro com arame farpado para que se evitasse o contacto com tal criatura. Orbán é um dos muitos chicos-espertos da política europeia contemporânea que passou de liberal a reacionário por razões táticas, ambição política e enquadramento numa rede protegida, ironia da história, por Moscovo. A "Rússia branca" ou a "Hungria para os húngaros" fazem parte de um programa descarado que pode ter todo o cabimento à luz dos valores do senhor Putin mas devia corar de vergonha qualquer cidadão desta Europa que se desfaz em autoelogios humanistas, cosmopolitas e se vê como a vanguarda universal da defesa do Estado de direito.

Nenhuma das 300 mil crianças que sobreviveram à travessia do Mediterrâneo e bateram às portas da UE em 2015 vislumbrou qualquer defesa do Estado de direito, respeito pelas convenções internacionais de direitos das crianças ou do estatuto dos refugiados ratificado por todos os Estados membros. Nesta matéria, se a montante a UE é um desastre na antecipação das crises que a assolaram e um fiasco na coordenação mínima, a jusante é ela própria um elemento de desrespeito jurídico. Os Orbáns desta vida só têm margem política para atuar porque ela lhe é generosamente concedida. Vale a pena recordar isto: mesmo violando os tratados (como muito bem disse em tempos o ministro dos negócios estrangeiros luxemburguês), nunca o Conselho Europeu ousou deixar de fora das suas reuniões o primeiro-ministro húngaro, mas, quando o brexit caiu como uma bomba em Bruxelas, a primeira decisão do conselho foi barrar a entrada a David Cameron. Se hoje Orbán faz o que quer da UE, tal como por exemplo Erdogan, à UE o deve.

E assim chegámos ao referendo húngaro. À parte as dúvidas sobre a constitucionalidade da pergunta, parece claro que, mais do que legitimar o travão aos refugiados e às quotas acordadas em Bruxelas, Orbán quer alcançar dois objetivos: primeiro, garantir a continuidade de maiorias absolutas com o voto útil dos eleitores da extrema-direita do Jobbik; segundo, ser o timoneiro continental da estratégia de renacionalização de praticamente todas as políticas europeias, à exceção das únicas que lhe interessam. E quais são elas? Que todos, sobretudo os mais ricos, continuem a financiar o orçamento comunitário e a dotar os fundos que chegam à Hungria do maior número de zeros. E que não seja posta em causa a livre circulação dos húngaros, dos seus capitais e mercadorias, de forma a que outros, como Orbán, possam ir tranquilamente estudar para Oxford, trabalhar em Paris ou comprar um automóvel a Munique.

Mesmo que não atinja os 50% de participação para ser juridicamente vinculativo, este referendo já atingiu o seu objetivo: dar continuidade, por outros meios e vozes, ao desmembramento iniciado com o brexit. O Kremlin e, quem sabe, Donald Trump não deixarão de prestar a devida homenagem a Orbán.

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